A Equação do Amor: Entre o Vazio de Lacan e a Plenitude do Ágape
Meus caros, por mais que eu tente, às vezes, escapar de certas linhas temáticas, acabo sempre retornando a este espaço para compartilhar aquilo que atravessa o meu cotidiano. São questões que me confrontam, mistérios que fico “ruminando” na tentativa de compreender — ainda que saiba que algumas interrogações humanas jamais poderão ser completamente esgotadas.
Há algum tempo, venho acalentando a proposta de colocar em diálogo duas perspectivas imensas sobre o amor: a exposição divina e a visão psicanalítica, especificamente a lacaniana.
E por que Jacques Lacan? Recentemente, mergulhada nos labirintos da teoria lacaniana, deparei-me com uma de suas máximas mais célebres e cortantes sobre o tema:
"Amar é dar o que não se tem a quem não o quer."
Sejamos sinceros: Lacan é extremamente difícil, denso e enigmático. Às vezes, no silêncio dos meus estudos, pego-me sorrindo e pensando: “Será que o próprio Lacan se entendia?” Brincadeiras à parte — e que os colegas lacanianos não me julguem, pois estudo com profunda admiração e sei que a jornada é longa —, essa frase me paralisou. Fixei os olhos nela por alguns segundos, mas passei muitos dias habitada por ela.
O autor defende que o amor humano se estrutura sobre dois pilares: a falta e a linguagem. Em termos simples, nascemos incompletos, marcados por um "buraco existencial" que a linguagem tenta, em vão, nomear e preencher. É nessa fratura que surge a busca pelo amor como uma tentativa de estancar a perda primordial. O paradoxo, contudo, é que na experiência amorosa você oferece ao outro exatamente aquilo que lhe falta: a sua própria vulnerabilidade.
Sob a ótica do ser humano faltante, faz total sentido desejar preencher esse vazio com um sentimento transbordante e nobre. Se não fosse por um detalhe anatômico da alma: você está oferecendo a sua falta a um outrem que também é dono de um imenso vazio. Como fechar essa equação? Como somar duas ausências esperando obter uma totalidade? Na clínica e na vida, o que vemos frequentemente é o choque de dois desamparos cobrando um do outro uma completude impossível.
Como mulher que conheceu e foi alcançada pelo Grande e Perfeito Amor, foi inevitável para mim correr e buscar refúgio na teologia. Diante do impasse lacaniano, minha mente revisitou o texto de 1 Coríntios 13, que descreve o Amor Ágape. E foi ali que compreendi que a resposta para a nossa equação matemática da falta não se encontra na horizontalidade das relações humanas, mas na verticalidade do divino.
O Amor Ágape opera na lógica inversa do desejo humano. Ele não nasce da carência, mas da superabundância. Deus não ama por precisar de nós para se sentir completo; Ele ama porque a sua essência é o próprio transbordo. É um amor que não entra na contabilidade neurótica do "dou para que me dês". Ele tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O desfecho dessa angústia que Lacan tão bem denunciou se dá quando percebemos que o Ágape não anula a nossa falta humana, mas a pacifica. Quando compreendemos que o nosso "buraco existencial" primordial já foi acolhido e preenchido pelo Absoluto, somos finalmente aliviados da carga hercúlea de exigi-lo de nossos parceiros, filhos ou pacientes.
Sabendo-se amado na falta, o sujeito pode, finalmente, suportar a incompletude do outro. O amor humano deixa de ser uma exigência de salvação e passa a ser o encontro maduro de duas fragilidades que, amparadas pelo Invisível, decidem caminhar juntas.
Elaine M Ceotto
Esposa, mãe e psicanalista em construção