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A ILUSÃO DA FAMA X A DOR DE ELABORAR E ENFRENTAR A REALIDADE

A ILUSÃO DA FAMA X A DOR DE ELABORAR E ENFRENTAR A REALIDADE

A ilusão da fama x a dor de elaborar e enfrentar a realidade

 

Quando a “Estrada de Tijolos Amarelos” encontra sua versão real

Boa tarde.

Vamos a mais uma breve reflexão sobre “a arte que fala sobre a vida”. Muito provavelmente muitos dos que vão ler não conhecem essa canção de Elton John (recomendo que ouçam, pois é belíssima). Eu a escuto desde muito pequenina, por volta dos 6 anos de idade, e guardo memórias afetivas profundas com ela. Mas, deixando de lado a nostalgia, hoje, vivenciando a psicanálise e percebendo o quanto a arte carrega e expressa as dores mais íntimas de seus criadores, parei para ouvi-la sob uma nova perspectiva.

 

Em Goodbye Yellow Brick Road, a célebre "estrada de tijolos amarelos"  imortalizada em O Mágico de Oz  surge não como um caminho de magia infantil, mas como a metáfora de uma fantasia de completude. Na infância ou na vida adulta, todos nós somos convidados pela cultura a crer que, ao final de uma determinada estrada de ouro (seja ela a fama, o aplauso, o status ou o prestígio), encontraremos um “mágico” capaz de suprir todas as nossas faltas.

 

Sob a ótica de Jacques Lacan, essa promessa pertence ao registro do Imaginário. Criamos para nós mesmos a ilusão de um "Eu ideal" que, se alcançar o topo da cobertura e os banquetes da alta sociedade, finalmente deixará de sofrer. No entanto, o encontro com o topo costuma revelar o oposto: a experiência do Real  aquilo que não cabe nas fantasias, a verdade nua de que nenhum aplauso exterior consegue preencher o vazio estrutural da alma. O sucesso mundano, longe de curar a dor de existir, muitas vezes apenas a encobre com ruído e exploração.

 

A beleza poética da canção está no instante ético em que o sujeito decide descer da cobertura e voltar para a terra, para o arado, para a simplicidade da sua própria verdade. Na psicanálise, isso se assemelha ao processo de atravessar a fantasia: renunciar à mentira sedutora de que o outro pode nos completar e assumir a responsabilidade pela própria vida, suportando a castração simbólica e o limite humano. Deixar a "estrada dourada" dói, pois exige desmanchar ilusões caras, mas é o único caminho para deixar de ser refém das expectativas alheias.

Ao descer desse pedestal imaginário, o ser humano reencontra a dignidade do chão real  onde a graça pode, enfim, operar. Como nos adverte com sobriedade as Escrituras:

 

“Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”

Marcos 8:36

 

Que tenhamos a coragem de nos despedir dos tijolos amarelos das vaidades passageiras, encontrando repouso não naquilo que seduz os olhos, mas naquilo que sustenta e redime o coração.

Colunista: Elaine Martins Ceotto

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