A Luneta, as Estrelas e o Coração: O que Realmente Importa na Clínica ?
A Luneta, as Estrelas e o Coração: O que Realmente Importa na Clínica?
Rubem Alves escreveu uma breve parábola que nos confronta profundamente:
“Havia um homem apaixonado pelas estrelas. Para ver melhor as estrelas ele inventou a luneta. Aí se formou uma escola para estudar a sua luneta. Desmontaram a luneta. Analisaram a luneta por dentro e por fora. Observaram os seus encaixes. Mediram as suas lentes. Estudaram a sua física ótica. Sobre a luneta de ver as estrelas escreveram muitas teses de doutoramento. E muitos congressos aconteceram para analisar a luneta. Tão fascinados ficaram pela luneta que nunca olharam para as estrelas.” Rubem Alves (Luneta e Estrelas)
Queridos colegas e leitores,
Esta semana me peguei estudando a fundo, debruçada sobre manuais e critérios diagnósticos, tentando encaixar um caso clínico que acompanho há tempos. Foi exatamente aí que reli esse texto de Rubem Alves e fui tomada por um choque de realidade: o quanto podemos ficar mergulhados em sintomas, nomenclaturas e teorias, correndo o risco de nos afastar do propósito central da clínica ajudar um ser humano a viver melhor.
Faço aqui um mea culpa, mas também um convite afetuoso aos terapeutas, analistas e conselheiros. É muito fácil tomar esse desvio. Na ânsia legítima de oferecer o melhor, corremos o risco de transformar o paciente em um quebra-cabeça teórico a ser decifrado, esquecendo a singularidade daquela pessoa que se senta diante de nós semanalmente partilhando angústias, dores, sonhos e medos.
O psicanalista Wilfred Bion nos ensinou sobre a capacidade de rêverie uma função psíquica primordialmente exercida pela mãe, capaz de acolher as angústias caóticas do bebê, dar-lhes contorno e devolvê-las digeridas em forma de amor e significado. Quando essa função falha na história de alguém, é diante de nós que esse sujeito se senta, precisando, antes de qualquer rótulo, de uma mente disponível e de um continente seguro para ser acolhido.
A técnica e o estudo são como a luneta: indispensáveis para ajustar o foco, mas nunca podem se tornar mais importantes do que a beleza do céu que observamos. Diagnósticos orientam, mas é o encontro humano que transforma.
Como nos lembra a Escritura:
“O homem vê a aparência, mas o Senhor olha para o coração.” 1 Samuel 16:7b
Que nunca percamos de vista o coração que pulsa do outro lado do divã.
Com carinho,
Elaine Martins Ceotto Esposa, mãe e psicanalista em construção