A Percepção de Si no Redemoinho da Existência e a Descoberta do Amor de Cura
A Percepção de Si no Redemoinho da Existência e a Descoberta do Amor de Cura
Querido leitor,
Aqui estou novamente a compartilhar com vocês fragmentos do meu dia a dia: meus afetos, alegrias, gostos e desprazeres…
Dessa vez, escolhi partilhar uma linda poesia da qual tenho a honra de ser a musa inspiradora sim, meu marido é o autor deste gesto em forma de palavras. Ao mergulhar nos versos dele, fui levada a refletir sobre como nos percebemos no meio ao turbilhão da vida e como, por vezes, é preciso se perder para finalmente se encontrar.
Ele escreveu:
Me acudam
Sim, por favor me acudam
Porque já não penso com razão
E as razões
Já não importam mais
Porque estou como
Perdido em alto mar
E tampouco quero voltar
Quem pode me ajudar?
Se passei por um portal
Por onde vão os sonhos
Que não querem acordar
Como poderia saber
Que não poderia voltar
Ah! Que breve a vida
E que belo o amor
Se me perco agora
É com a razão
Que ela mesma
Desconhece"
E, ao olhar para essa batalha interna que todos enfrentamos, a poesia continua em seu poema intitulado Golpe:
Como um lutador
Desfiro golpes no ar
Como se abatesse fortalezas
E torres feitas de pedra
O fogo que me assola
Amontoa suas cinzas sobre mim
Um batalhão que marcha
Num compasso de batalha
Me conduz a um abismo
Que devora todo sonho e toda alma
Numa queda sem fim
Mas o amor
Empunha uma espada
E cada golpe tudo pode
No exercício das dores
Alcanço os altos da glória"
A Razão Desconhecida e o Despertar do Eu
Na psicanálise, aprendemos que o sujeito não é senhor nem em sua própria casa. Quantas vezes nos vemos desferindo "golpes no ar", lutando contra moinhos de vento ou nos sentindo à deriva em alto mar, tentando controlar com o intelecto aquilo que pertence unicamente ao campo dos afetos? O redemoinho da existência frequentemente nos convoca a desarmar nossas defesas rígidas essas fortalezas e torres de pedra que construímos para nos proteger. No entanto, quando a razão se dobra e reconhece que "ela mesma desconhece" a profundidade daquilo que sentimos, algo mágico acontece: a oportunidade de uma verdadeira percepção de si mesmo. É no limiar do desamparo, quando ultrapassamos o portal do que é previsível, que nos abrimos para o inconsciente e para a capacidade de transformação.
O Amor de Cura
Lutar contra as próprias dores sem um propósito pode nos conduzir ao esgotamento, mas a poesia nos lembra de uma virada fundamental: o amor que empunha a espada. O amor não anula as dores da existência ele não apaga os abismos nem dissipa magicamente o fogo , mas oferece um novo sentido para a batalha. Ele nos dá sustentação para atravessar o exercício das dores e alcançar um lugar de integração e serenidade. O amor de cura é aquele que nos aceita vulneráveis, que acolhe a nossa desrazão e que nos permite renunciar ao desejo de controle para simplesmente ser. Quando nos permitimos afundar e renascer dentro de um laço afetuoso e seguro, descobrimos que perder-se também pode ser a forma mais bonita de se achar. Que possamos, no dia a dia, ter a coragem de atravessar nossos portais, reconhecer nossas limitações com gentileza e nos deixar abraçar pela força restauradora do amor.
Com carinho, Elaine Martins Ceotto Esposa que ama.