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A POLÍTICA O QUE A PSICANÁLISE DIZ

23 de October, 2026 • Angélica de Souza Pereira
A POLÍTICA O QUE A PSICANÁLISE DIZ

A Política o que a psicanalise diz.

Às vésperas do segundo turno presidencial, a polarização política expõe não apenas diferenças ideológicas, mas também questões relacionadas à identidade, ao medo, ao pertencimento e à necessidade humana de encontrar respostas para um futuro incerto.

Por Bruno Vicentin

Brasil, 23 de outubro de 2026

A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, marcado para domingo, 25 de outubro, o debate político volta a ocupar um espaço central nas conversas familiares, nos ambientes de trabalho, nas igrejas e nas redes sociais. A disputa entre projetos políticos associados à direita e à esquerda ultrapassa os limites dos programas de governo e frequentemente alcança a esfera das relações pessoais, produzindo conflitos, rompimentos e dificuldades de diálogo.

Nesse cenário, uma questão merece atenção: por que as posições políticas despertam emoções tão intensas? E por que, em determinadas circunstâncias, uma divergência eleitoral deixa de ser uma discussão sobre propostas e passa a ser interpretada como uma ameaça à própria identidade?

A psicanálise oferece instrumentos para refletir sobre essas perguntas, investigando os processos inconscientes, as identificações e os mecanismos emocionais que podem participar da formação das convicções políticas.

Direita e esquerda: diferenças que ultrapassam os partidos

As expressões direita e esquerda representam tradições políticas diversas, com diferenças importantes na maneira de compreender o papel do Estado, a economia, a liberdade individual, a igualdade social, a segurança pública e a preservação das instituições.

De maneira geral, correntes da direita costumam enfatizar, em diferentes combinações, a liberdade econômica, a responsabilidade individual, a ordem, a segurança e a preservação de determinadas tradições. Já correntes da esquerda frequentemente atribuem maior centralidade à redução das desigualdades, à proteção social, aos direitos trabalhistas e à atuação do Estado na promoção de oportunidades.

Essas definições são gerais e não contemplam toda a diversidade existente dentro de cada campo político. Há diferentes direitas e esquerdas, além de posições de centro e combinações de ideias que não se encaixam perfeitamente nessas classificações.

O problema surge quando o adversário deixa de ser percebido como alguém que defende outra interpretação da realidade e passa a ser considerado uma pessoa necessariamente má, ignorante ou incapaz de participar da vida democrática.

É nesse ponto que a discussão política também se torna um fenômeno psicológico e social.

O olhar da psicanálise: política, identidade e inconsciente

A psicanálise não foi desenvolvida para determinar qual posição política está correta. Sua contribuição está em investigar os processos psíquicos que podem influenciar a maneira como os indivíduos constroem suas convicções, escolhem seus representantes e reagem às opiniões contrárias.

Em sua obra Psicologia das Massas e Análise do Eu, publicada em 1921, Sigmund Freud investigou os vínculos emocionais que aproximam os indivíduos de grupos, líderes e ideais coletivos.

Essa perspectiva permite compreender como a identificação com um partido ou liderança pode adquirir um significado que ultrapassa a concordância com propostas concretas. Para algumas pessoas, pertencer a um campo político também significa encontrar reconhecimento, compartilhar valores, sentir-se protegido e construir uma narrativa sobre quem são.

A escolha política, portanto, pode reunir elementos racionais e emocionais. O eleitor avalia propostas, experiências de governo e informações disponíveis, mas também interpreta a realidade a partir de sua história pessoal, de seus valores e de suas expectativas.

Isso não significa que o voto seja necessariamente irracional. Significa que a decisão humana não é explicada apenas por cálculos objetivos: emoções, vínculos e experiências também participam das escolhas.

O líder político e a necessidade de pertencimento

Em períodos de instabilidade, determinados líderes podem representar, para seus apoiadores, a promessa de segurança, mudança, reconhecimento ou recuperação de algo considerado perdido.

Do ponto de vista psicanalítico, é possível investigar como essas figuras passam a ocupar um lugar simbólico na vida de seus seguidores. O líder pode ser associado à imagem de alguém capaz de proteger, organizar o caos, enfrentar inimigos ou restaurar a esperança.

Essa relação não é exclusiva de um partido, de uma ideologia ou de um sistema político. Ela pode ocorrer em diferentes movimentos, conforme suas características e o contexto social.

Quando a identificação se torna excessivamente rígida, entretanto, a crítica ao representante pode ser experimentada como uma ofensa pessoal. Informações desfavoráveis são rejeitadas, enquanto notícias favoráveis recebem maior credibilidade, mesmo quando ambas mereceriam a mesma verificação.

Esse processo pode ser compreendido em diálogo com mecanismos de defesa e fenômenos de identificação grupal, sem que seja necessário transformar toda divergência política em sinal de conflito psicológico.

O adversário político como inimigo

Uma das manifestações mais preocupantes da polarização é a transformação do adversário em inimigo moral.

Em vez de discutir medidas econômicas, políticas públicas, segurança, educação ou saúde, parte do debate passa a se concentrar na desqualificação de quem pensa diferente. A pessoa deixa de examinar argumentos e passa a avaliar o interlocutor exclusivamente pelo grupo ao qual ele pertence.

A psicanálise permite refletir sobre a participação de mecanismos como a projeção, pela qual aspectos difíceis de reconhecer em si mesmo podem ser atribuídos ao outro. Em determinadas circunstâncias, o adversário passa a concentrar tudo aquilo que um grupo considera ameaçador, injusto ou inaceitável.

É importante, porém, evitar diagnósticos precipitados. Não é possível afirmar que todo eleitor polarizado esteja projetando seus conflitos internos, nem que a discordância política constitua, por si só, um problema clínico. Esses conceitos oferecem hipóteses de interpretação, não explicações universais para o comportamento eleitoral.

O desafio democrático consiste em reconhecer que uma pessoa pode defender ideias equivocadas ou propostas com as quais discordamos profundamente sem, por isso, perder sua condição de cidadã ou sua dignidade humana.

Medo, esperança e o desejo de controlar o futuro

As campanhas eleitorais mobilizam expectativas sobre o futuro. Segurança, emprego, renda, corrupção, serviços públicos, valores familiares e estabilidade econômica são temas que podem despertar tanto esperança quanto receio.

A psicanálise ajuda a compreender como situações de incerteza podem intensificar a busca por respostas claras e por figuras que prometam resolver problemas complexos. Em contextos assim, discursos simples, certezas absolutas e explicações que identificam um único culpado podem exercer forte apelo emocional.

As redes sociais podem ampliar esse processo ao favorecer a circulação de mensagens que provocam indignação, medo ou entusiasmo. Estudos sobre movimentos de massa no contexto político brasileiro também investigam como as plataformas digitais participam da formação de vínculos coletivos e da intensificação de disputas ideológicas.

Isso não significa que toda mensagem emocional seja falsa ou que toda manifestação de indignação seja manipuladora. Emoções podem chamar a atenção para injustiças reais. O cuidado necessário é não permitir que a intensidade de uma reação substitua a análise dos fatos.

A família diante da polarização

A disputa eleitoral também pode alcançar os vínculos mais íntimos. Pais e filhos, casais, irmãos e amigos podem descobrir diferenças políticas que antes não pareciam relevantes ou que nunca haviam sido discutidas com tanta intensidade.

Sob uma perspectiva psicanalítica, essas situações podem ser examinadas considerando a história dos relacionamentos, as expectativas de reconhecimento e o significado que cada pessoa atribui às próprias convicções.

Em algumas famílias, discordar politicamente passa a ser interpretado como rejeitar os valores familiares. Em outras, a discussão funciona como uma tentativa de conquistar reconhecimento ou demonstrar autonomia.

Não existe uma única explicação para esses conflitos. Contudo, estabelecer limites para conversas agressivas, escutar antes de responder e separar a pessoa de sua posição política são atitudes que podem ajudar a preservar relações importantes.

Nenhuma convivência saudável exige concordância absoluta. O respeito não elimina o debate; estabelece condições para que ele aconteça sem humilhação ou violência.

O voto consciente exige reflexão, não obediência emocional

Diante da eleição presidencial, a contribuição da psicanálise não consiste em recomendar um candidato de direita ou de esquerda. Seu papel é ampliar a reflexão sobre os fatores que participam das escolhas e estimular uma relação mais consciente com as próprias convicções.

O eleitor pode se perguntar: estou avaliando propostas e resultados ou apenas reagindo ao medo de que o outro lado vença? As informações que compartilho foram verificadas? Consigo reconhecer méritos e falhas no campo político com o qual me identifico? Estou disposto a rever uma opinião diante de evidências confiáveis?

Essas perguntas não exigem neutralidade diante de todos os temas, tampouco significam que todas as propostas sejam equivalentes. Exigem responsabilidade intelectual e disposição para distinguir fatos, interpretações, promessas e interesses políticos.

A democracia depende de eleições livres, instituições legítimas, participação cidadã e respeito às regras do processo eleitoral. Também se fortalece quando a sociedade consegue sustentar divergências sem transformar diferenças ideológicas em justificativas para o ódio.

O desafio depois das urnas

No domingo, 25 de outubro, os brasileiros participarão de mais uma etapa decisiva do processo eleitoral. Independentemente do resultado, os desafios sociais, econômicos e institucionais do país continuarão exigindo debate público, fiscalização, participação e responsabilidade dos representantes eleitos.

A vitória de um candidato não elimina as preocupações de seus adversários, assim como a derrota de uma candidatura não torna ilegítimas todas as demandas de seus apoiadores.

O resultado eleitoral define quem recebe o mandato para governar, mas não deve determinar quem merece ser ouvido, respeitado ou reconhecido como parte da sociedade.

A reflexão psicanalítica convida a olhar para além das manifestações mais visíveis do conflito político e a considerar os afetos, as identificações e os medos que podem atravessá-lo. Esse olhar não substitui a análise histórica, econômica ou institucional, mas pode contribuir para compreender por que certas divergências se tornam tão difíceis de elaborar.

Em uma sociedade democrática, maturidade política não significa deixar de ter convicções. Significa ser capaz de sustentá-las sem abrir mão da realidade, da responsabilidade e do respeito pelo outro.

Talvez uma das perguntas mais importantes desta eleição não seja apenas em quem cada brasileiro votará, mas também como cada cidadão pretende conviver com aqueles que escolheram de maneira diferente.

Afinal, o país que emerge das urnas continuará sendo compartilhado por todos.

Neste sábado, teremos uma edição extra, onde falarei sobre o Cristão e a politica,

Colunista: Bruno Vicentin

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