A Reflexão do Guerreiro: O Canto das Sereias e os Espelhos da Alma

27 de July, 2026 Angélica de Souza Pereira
A Reflexão do Guerreiro: O Canto das Sereias e os Espelhos da Alma

A Reflexão do Guerreiro: O Canto das Sereias e os Espelhos da Alma

Por Elaine M Ceotto Esposa, mãe e psicanalista em construção

Como apreciadora da mitologia e das histórias que alimentam nossa imaginação, encantei-me ao ver a jornada de Odisseu recontada no cinema. Não como crítica de arte, mas como alguém que encontra na psicanálise as chaves para decifrar os dilemas mais profundos da alma humana. Num determinado momento da travessia, Odisseu orienta sua tripulação a tapar os ouvidos com cera. Ele, porém, escolhe ouvir o perigoso canto das sereias  mas exige ser amarado firmemente ao mastro do navio, ordenando que jamais o soltem, por mais que suplique. Euríloco, seu contramestre, observa o desespero e a agonia de Odisseu ao atravessar aquela região. Mais tarde, curioso, pergunta ao mestre como era aquele canto. A resposta de Odisseu carrega uma densidade psicanalítica avassaladora: Era tudo aquilo que você um dia quis ser e, depois, tudo aquilo que passou a desejar nunca ter desejado." Ainda que essa fala seja uma licença poética do cinema e não conste na obra original de Homero, ela é um verdadeiro raio-X do psiquismo humano).

O Desejo, o Gozo e o Canto Sedutor

As sereias do mito não prometem apenas uma melodia bonita; elas prometem a satisfação absoluta e o preenchimento de toda falta. Na psicanálise, esse canto representa a ilusão do gozo pleno  a promessa enganosa de alcançar a perfeição e se livrar de todas as dores e limitações. É aqui que a fala atribuída a Odisseu nos ajuda a entender dois conceitos fundamentais formulados por Sigmund Freud: o Ego Ideal e o Ideal de Ego.

  1. "Tudo aquilo que você um dia quis ser..."  O Ego Ideal
  2. O Ego Ideal nasce na infância e habita nossas fantasias mais primitivas de onipotência. É a imagem de um "eu perfeito", invulnerável, sem falhas e aplaudido por todos. As sereias cantam exatamente para esse lugar: elas oferecem a Odisseu o espelho da sua própria glória idealizada  o herói imbatível. É a promessa de ser tudo o que se sonhou, sem esforço, sem dor e sem limitações.
  3. 2. "...tudo aquilo que passou a desejar nunca ter desejado"  O Ideal de Ego
  4. O Ideal de Ego, por sua vez, é construído a partir do momento em que aceitamos que não somos perfeitos. É o modelo simbólico de quem buscamos nos tornar através da ética, do esforço, da cultura e dos valores  mas cientes das nossas limitações humanas. Quando Odisseu ouve o canto, seu Ego Ideal é terrivelmente ativado. Ele deseja se lançar ao mar para abraçar essa ilusão de perfeição. Porém, confrontar a satisfação total do desejo de forma desmedida não traz paz; traz a destruição. O encontro sem limites com a própria fantasia devora o sujeito. É o momento em que a ilusão do "ser tudo" revela seu lado aterrorizante.
  5. O Mastro e o Provérbio: A Importância do Limite
  6. Para sobreviver ao canto, Odisseu precisou de um mastro e de cordas. Na psicanálise, essa amarração representa a Lei  a interdição que nos protege de nós mesmos. É a estrutura que nos impede de ceder aos impulsos destrutivos da nossa própria mente.
  7. Essa travessia dialoga perfeitamente com a sabedoria das Escrituras em Provérbios 23:7:
  8. "Porque, como imaginou no seu coração, assim é ele."
  9. O texto sagrado e a psicanálise concordam: aquilo que alimentamos na intimidade dos nossos pensamentos e desejos molda quem somos e para onde navegamos. Se ficarmos aprisionados às ilusões de perfeição do nosso Ego Ideal, seremos destruídos pelas nossas próprias fantasias. Mas, se aceitarmos as cordas da maturidade, da estrutura e do limite, poderemos ouvir a vida sem nos afogarmos nela. Esta foi a primeira parte da nossa jornada de reflexões. Nos vemos na Parte 2! 

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