Ain’t No Sunshine: O Divã e a Luz que Buscamos no Outro

13 de July, 2026 BRUNO GUSTAVO VICENTIN
Ain’t No Sunshine: O Divã e a Luz que Buscamos no Outro

Caro leitor,

Aqui estou novamente compartilhando meus gostos musicais — um tanto eclético ;)

A música que dá título a este texto, um clássico de Bill Withers dos anos 70, é um sucesso romântico inegável. Sua letra minimalista carrega uma profundidade avassaladora sobre o vazio e a angústia que sentimos longe de quem amamos.

Acompanhe comigo este trecho:

 

Ain't no sunshine when she's gone. (Não há luz do sol quando ela vai embora.)

It's not warm when she's away. (Não faz calor quando ela está longe.)

And she's always gone too long... (E ela sempre demora muito para voltar...)

 

O cantor nos diz que, toda vez que ela se vai, o sol para de brilhar e o calor desaparece. Achamos isso incrivelmente romântico na poesia, mas será que é saudável na vida real? O que Sigmund Freud nos diria sobre essa angústia em uma sessão de análise?

O Esvaziamento do Eu

Na visão psicanalítica, o amor envolve depositar nossa energia psíquica (a libido) no outro. Nós o vestimos com nossas idealizações e o transformamos na nossa principal fonte de satisfação.

Quando a música diz que "não há luz do sol quando ela vai embora", Freud identificaria um processo de esvaziamento do próprio Eu. Quando colocamos toda a nossa "luz" e o nosso "calor" no parceiro, a ausência dele não é sentida como uma saudade comum, mas como se o nosso próprio mundo perdesse o sentido. Transferimos para o outro a chave da nossa existência.

O Conflito do "I Know"

Em certo ponto, o cantor repete a expressão "I know" (Eu sei) 26 vezes seguidas. Na psicanálise, as repetições sinalizam um conflito.

Esse "eu sei" exaustivo demonstra o embate entre a razão e o afeto. O lado racional sabe que aquela ausência constante faz mal ("ela sempre demora muito para voltar"), mas o lado inconsciente não consegue desapegar. É a mente tentando processar uma angústia que a lógica pura não resolve.

Encontrando a Nossa Própria Luz

Afinal, é "errado" sentir-se assim? A psicanálise não julga, mas nos convida a compreender nossa falta constitutiva. Desde que nascemos, carregamos um vazio que, muitas vezes, tentamos preencher exigindo que o outro nos complete.

Sentir falta de quem amamos é legítimo. O perigo começa quando permitimos que o outro seja a única fonte de luz da nossa vida. Se a nossa estabilidade depende exclusivamente da presença de alguém, o nosso mundo desaba a cada despedida.

A arte é bela porque valida nossa vulnerabilidade. Mas o amadurecimento nos convida a sustentar nossos próprios passos, lembrando que a nossa caminhada deve ser como o texto sagrado descreve em Provérbios 4:18:

 

Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito."

 

Que a nossa jornada — emocional e espiritual — seja esse amanhecer constante, onde aprendemos a brilhar de dentro para fora, independentemente das ausências ao redor.

Até a próxima melodia!

Elaine M Ceotto

Esposa, mãe e psicanalista em construção

 

 


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