DA FERIDA AO FLORESCER: O QUE AS NOSSAS RACHADURAS REVELAM SOBRE NÓS

31 de August, 2026 Angélica de Souza Pereira
DA FERIDA AO FLORESCER: O QUE AS NOSSAS RACHADURAS REVELAM SOBRE NÓS

Da ferida ao florescer: o que as nossas rachaduras revelam sobre nós

Queridos amigos, quero compartilhar uma história suave que certamente muitos já conhecem, mas que hoje tocou profundamente o meu coração. Convido você a fazer uma pausa no dia para caminhar comigo por essa reflexão:

 

Um carregador de água na Índia levava dois grandes potes, um em cada extremidade de uma vara apoiada sobre os ombros. Um dos potes era perfeito e sempre chegava ao destino com a carga cheia. O outro tinha uma rachadura e, por isso, chegava sempre com a água pela metade.

 

Durante dois anos isso se repetiu, até que o pote rachado, sentindo-se envergonhado e insuficiente, desabafou com o carregador:

 Peço-lhe perdão. Por causa da minha imperfeição, entrego apenas metade do que deveria, e você não colhe o fruto total do seu esforço.

 

O homem, movido por imensa ternura, olhou para ele e disse:

Ao subirmos a estrada hoje, olhe com carinho para as flores ao longo do caminho.

 

Na subida da montanha, o velho pote viu lindas flores selvagens adornando a beira da estrada. Mesmo assim, ao final da jornada, voltou a se desculpar pela água que havia perdido. O homem então sorriu docemente e explicou:

 Você reparou que as flores só nasceram do seu lado da estrada? Sabendo da sua rachadura, espalhei sementes ali. Durante todo esse tempo, foi você quem as regou com a sua água. Graças a você, pude colher essas flores e levar beleza para a mesa do meu senhor.

 

Um olhar da psicanálise: acolher a dor para encontrar o sentido

Quantas vezes, ao conversarmos com alguém imerso em dores profundas ou até ao olharmos para dentro de nós mesmos , ouvimos a sensação amarga de não ter valor, como se o melhor fosse simplesmente desaparecer. É o sentimento do pote rachado: a dor de se sentir quebrado, insuficiente ou um peso para quem caminha ao lado.

Sigmund Freud nos ensinou que a nossa humanidade é marcada justamente pela imperfeição e pela falta. Ninguém passa por esta vida inteiramente ileso. Nossas histórias são tecidas com momentos de alegria, mas também com fios ásperos de perdas, frustrações e feridas invisíveis.

Na psicanálise, aprendemos que tentar esconder a rachadura ou fingir que a dor não existe apenas aumenta o sofrimento. A verdadeira transformação acontece pelo que chamamos carinhosamente de elaboração: a coragem de revisitar a nossa história com ternura, acolher as partes que doem e dar a elas um novo significado.

Aquilo que muitas vezes julgamos ser a nossa maior fraqueza pode se tornar a nossa maior fonte de sensibilidade e empatia. Ao integrarmos nossas marcas em vez de rejeitá-las, o que antes parecia apenas perda involuntária transforma-se em cuidado, escuta atenta e afeto pelo outro.

Nenhuma dor vivida foi em vão quando permitimos que ela seja visitada e compreendida. São as nossas próprias marcas que nos capacitam a regar sementes invisíveis na vida de quem cruza a nossa jornada, fazendo desabrochar flores onde antes só havia terra seca.

Elaine Martins Ceotto

Esposa, mãe e um pote que já foi rachado


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