Da Sétima Arte ao Enigma da Psique: Hamlet e a Anatomia da Melancolia

18 de May, 2026 BRUNO GUSTAVO VICENTIN
Da Sétima Arte ao Enigma da Psique: Hamlet e a Anatomia da Melancolia

Desde quando me interessei muito cedo pela arte do cinema, foi através dela que conheci William Shakespeare. No clássico Romeu e Julieta, encantei-me pela forma como ele, de maneira tão poética e profunda, relatava conflitos, paixões, dúvidas e até a maldade crua das profundezas da alma — da nossa psique.

Depois, mergulhei em Rei Lear, Otelo, Sonhos de uma Noite de Verão, Ricardo V, Macbeth… Até que, em Hamlet, deparei-me com a grande pergunta: "Ser ou não ser, eis a questão". Quando vi pela primeira vez toda a dor e o sofrimento contidos no personagem central, o Príncipe Hamlet, procurando descobrirse em meio a uma constante montanha-russa de humor e sentimentos — envolto naquele clima noir que provavelmente era a exata reflexão das "cores" que povoavam sua alma —, apaixonei-me pelo mistério da singularidade humana.

Muitos anos mais tarde, quando conheci e me envolvi com a psicanálise, acabei descobrindo que os grandes nomes e pais da nossa clínica também eram admiráveis leitores desse autor. Através de suas histórias, eles identificaram e elaboraram alguns dos sofrimentos, estruturas e transtornos que hoje conhecemos e que nos ajudam a escutar pessoas em sofrimento.

Hoje, convido você a se ater comigo ao drama desse personagem em especial. Vamos descobrir, à luz da psicanálise, o que possivelmente constituía o sofrimento desse jovem príncipe.

O Olhar Psiquiátrico vs. A Escuta Psicanalítica

Para a psiquiatria contemporânea, a tentação de carimbar o

Príncipe da Dinamarca com o rótulo do Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) é quase irresistível. Afinal, a peça nos entrega um jovem capturado em uma gangorra afetiva explícita. De um lado, o polo depressivo: o desinteresse radical pela existência, a apatia, as vestes negras e o desejo manifesto de que "esta carne tão sólida se derretesse". Do outro, o salto abrupto para um estado de agitação febril, marcado por discursos rápidos, ironia mordaz, perda da inibição social e uma impulsividade que culmina em atos impensados.

No entanto, a psicanálise nos convida a dar um passo atrás antes de fechar qualquer diagnóstico superficial. Onde a nosologia médica enxerga uma disfunção biológica, a escuta clínica sintoniza com a linguagem do sofrimento psíquico. Mais do que uma oscilação de humor, o que Shakespeare desenha com maestria são os matizes de uma profunda melancolia.

Luto vs. Melancolia: A Perda Invisível

Em 1917, no texto fundamental Luto e Melancolia, Sigmund Freud traçou uma distinção clínica brilhante que nos ajuda a compreender o sofrimento de Hamlet. Tanto no luto quanto na melancolia, há uma reação dolorosa à perda de algo ou alguém profundamente amado. No entanto, o destino dessa dor é radicalmente diferente:

 No Luto: O mundo tornou-se pobre e vazio. O sujeito sabe exatamente quem perdeu. Com o tempo e o trabalho de elaboração, o Eu consegue retirar a energia afetiva daquele objeto e se abrir novamente para a vida.

 Na Melancolia: O Eu é que se torna pobre e vazio. O sujeito sabe quem perdeu, mas não sabe o que perdeu com aquela pessoa. Há uma parte de si que foi sepultada junto com o objeto no inconsciente.

Como o próprio Freud sintetizou: "No luto, o mundo tornou-se pobre e vazio; na melancolia, é o próprio Eu".

Quando a Sombra do Objeto Cai sobre o Eu

É nesse ponto que o drama de Hamlet se torna universal. Freud explica que, em vez de aceitar a perda e chorá-la exteriormente, o melancólico realiza uma identificação narcísica com o objeto perdido. Ele traz o objeto para dentro de si, internalizando-o. O problema é que, junto com o amor, vêm também todas as frustrações, mágoas e hostilidades inconscientes direcionadas a ele.

A partir daí, a sombra do objeto cai sobre o Eu. O Superego — essa instância psíquica juíza e implacável — passa a atacar o próprio Eu como se estivesse atacando o objeto que se foi. Isso explica a autodepreciação feroz do melancólico. Quando Hamlet se recolhe em seus solilóquios se chamando de "vil escravo", "frouxo" e questionando o valor de sua própria existência, seu Eu está sendo massacrado por uma culpa inconsciente que ele mal consegue nomear.

Essa paralisia se agrava pelo colapso de seu mundo simbólico: a pressa com que sua mãe, Gertrudes, se casa com o tio, Cláudio, desorganiza seu complexo edipiano. Como Freud apontou em A Interpretação dos Sonhos, a hesitação de Hamlet em vingar o pai vem do fato de que Cláudio realizou, na realidade, os desejos inconscientes do próprio príncipe: eliminar a figura paterna e possuir a mãe. A culpa o imobiliza.

A Oscilação Maníaca: O Triunfo Desesperado

Mas e os momentos de exaltação, a agitação verbal e a aparente loucura de Hamlet? Na clínica psicanalítica, eles não são eventos biológicos aleatórios, mas sim a outra face da mesma moeda: a mania.

Quando o peso do Superego cruel se torna absolutamente insuportável, o Eu se rebela e busca o triunfo. Há uma libertação temporária dessa tirania interna. O sujeito entra em um estado de exaltação onde nega a perda, desdenha da dor e gasta energia de forma frenética — exatamente como o príncipe faz ao tripudiar sobre os cortesãos de Elsinore com sua ironia cortante. A "loucura" de Hamlet e seu refúgio maníaco são tentativas desesperadas da psique para não desabar no vazio do abismo melancólico.

Além do Rótulo: A Singularidade do Sujeito

Classificar Hamlet estritamente sob um rótulo patológico empobrece a riqueza de sua psique. Suas oscilações de humor são as respostas possíveis de um sujeito fraturado tentando responder à pergunta que atravessa a clínica psicanalítica até os dias de hoje: como sustentar o próprio desejo diante das falhas e das exigências sufocantes do Outro?

O sofrimento melancólico nos mostra que a dor da alma não se cura calando os sintomas, mas oferecendo um espaço de escuta onde o sujeito possa, finalmente, dar contornos de palavra àquilo que perdeu. Ao acolher as oscilações e os abismos da alma, a psicanálise não busca normatizar o sujeito, mas permitir que ele — assim como Hamlet tentou fazer através de seu teatro particular — possa restabelecer sua própria verdade.

Elaine M. Ceotto - psicanalista

 


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