Deus Aconselha Antes que a Dor Ensine.
Deus sempre prefere a obediência ao sofrimento causado pela desobediência. Desde o princípio Deus vem nos ensinando através de Sua voz, sua Palavra e de pessoas enviadas por Ele.
“Contudo, Samuel declarou: “Agrada-se mais a Yahweh com holocaustos e sacrifícios do que com a sincera obediência à sua Palavra? De modo algum, a obediência é melhor do que o sacrifício, e a submissão do coração mais do que a gordura dos carneiros. ”” 1Sm 15:22
Ao longo de toda a Bíblia, encontramos um princípio que revela o coração de Deus. Antes de permitir que as consequências alcancem o ser humano, Ele fala. Antes da disciplina, vem a advertência. Antes do juízo, há misericórdia. Antes da dor, Deus oferece a oportunidade de arrependimento.
Esse padrão revela um aspecto profundo do caráter divino. Deus não deseja que aprendamos apenas pelo sofrimento. Seu propósito sempre foi que aprendêssemos pela obediência.
Infelizmente, a história das Escrituras mostra que o ser humano frequentemente prefere seguir seus próprios caminhos. Somente depois de colher as consequências de suas escolhas é que muitos perguntam por que Deus permitiu determinado sofrimento. Entretanto, na maioria das vezes, a resposta está nas inúmeras ocasiões em que Deus falou, aconselhou e advertiu, mas Sua voz foi ignorada.
Desde o princípio essa realidade é evidente. Ainda no Jardim do Éden, antes da queda, Deus orientou Adão:
“E o Senhor deu a seguinte ordem ao homem: “Comerás livremente o fruto de qualquer espécie de árvore que está no jardim; contudo, não comerás da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comeres, com toda a certeza morrerás! ”” Gn 2: 16-17
A consequência não surgiu sem aviso. Primeiro veio a orientação. Depois, a escolha humana. Por fim, as consequências da desobediência.
Esse mesmo padrão acompanha toda a história de Israel. Antes do exílio babilônico, Deus levantou sucessivamente profetas como Isaías, Jeremias, Oséias, Amós, Miqueias e muitos outros. Embora cada um tenha exercido seu ministério em contextos diferentes, todos proclamavam essencialmente a mesma mensagem: “Voltem para Mim.”
O problema nunca foi a ausência da direção divina. O verdadeiro problema sempre esteve na resistência do coração humano em escutar e obedecer.
Grande parte do sofrimento vivido por Israel não aconteceu porque Deus abandonou Seu povo, mas porque o povo abandonou a Deus.
O livro de Juízes ilustra esse processo de maneira marcante. O povo se afastava do Senhor, experimentava a opressão dos inimigos, clamava por socorro, Deus levantava um libertador, havia paz por um tempo, e então a desobediência recomeçava. Esse ciclo repetiu-se durante séculos.
Jeremias resume essa triste realidade:
“Sendo assim, desde a época em que os vossos antepassados foram libertos do Egito até o dia de hoje, Eu vos enviei grande número dos meus servos: os profetas; dia após dia; Porém, vós não os escutastes, tampouco acatastes a Palavra que vos pregaram. Antes, tornaram-se obstinados e agiram de modo ainda pior que os seus pais e antepassados.” Jr 7:25-26
O exílio, portanto, não foi um acontecimento inesperado, mas o resultado de anos de rejeição aos conselhos de Deus.
Essa mesma verdade aparece na história do rei Saul. Em 1 Samuel 15, Deus ordenou claramente que ele destruísse completamente os amalequitas. Saul, porém, resolveu adaptar a ordem divina à sua própria vontade. Preservou o rei Agague e poupou os melhores animais.
Quando foi confrontado por Samuel, tentou justificar sua desobediência afirmando que aqueles animais seriam oferecidos em sacrifício ao Senhor. Foi nesse contexto que escutou uma das declarações mais marcantes das Escrituras, “Obedecer é melhor do que sacrificar.”
Deus não precisava daqueles animais. O que Ele desejava era um coração obediente.
Nenhum ato religioso pode compensar uma desobediência consciente. A religiosidade jamais substitui uma vida de submissão à vontade de Deus.
Esse princípio aparece novamente nas palavras do profeta Oséias:
“Afinal, o que desejo é o vosso amor, e não sacrifícios; entendimento quanto à pessoa de Elohim, Deus, mais que ofertas e holocaustos.” Os 6:6
Séculos depois, Jesus utilizaria exatamente esse texto ao confrontar os fariseus:
“Portanto, ide aprender o que significa isso: ‘Misericórdia quero, e não sacrifícios’. Pois Nõ vim resgatar justos e sim pecadores.” Mt 9:13 ; 12:7
Talvez uma das maiores lições da Bíblia seja perceber quanto sofrimento poderia ter sido evitado.
Quantas guerras Israel deixaria de enfrentar? Quantos anos de escravidão poderiam não ter existido? Quantas famílias permaneceriam unidas? Quantos reis conservariam seus tronos? Quantas lágrimas jamais seriam derramadas se o povo simplesmente tivesse escutado a voz do Senhor?
Esse princípio permanece absolutamente atual.
Vivemos sob a graça revelada em Cristo, mas Deus continua falando por meio das Escrituras, da ação do Espírito Santo, da pregação fiel da Palavra e de conselhos fundamentados na verdade bíblica.
O problema é que, muitas vezes, buscamos direção de Deus esperando apenas que Ele confirme nossos próprios desejos. Queremos Sua aprovação, mas nem sempre estamos dispostos a obedecer Sua vontade.
Entretanto, a lei espiritual permanece inalterada:
"Não vos enganeis: Deus não se permite zombar. Portanto, tudo o que oser humano semear, isso também colherá!” Gl 6:7
A graça concede perdão, mas nem sempre elimina todas as consequências das escolhas erradas. Se Saul representa a desobediência, Jesus representa a perfeita obediência. No Getsêmani, mesmo diante da cruz, Cristo declarou:
“Pai, se queres, afasta de mim este cálice; entretanto, não seja feita a minha vontade, mas o que Tu desejas!” Lc 22:42
Sobre Ele, Paulo escreveu:
“Assim, na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, entregando-se à obediência até a morte, e morte de cruz. Fp 2:8
Cristo tornou-se o modelo supremo de obediência para todos os discípulos. A vida cristã não consiste apenas em evitar o pecado, mas em desenvolver um coração disposto a obedecer mesmo quando ainda não compreende plenamente os propósitos de Deus.
Ao observar toda a narrativa bíblica, torna-se evidente que Deus nunca teve prazer em disciplinar Seu povo. Seu desejo sempre foi conduzi-lo por caminhos de paz.
Sempre que houve juízo, antes houve misericórdia. Sempre que houve disciplina, antes houve advertência. Sempre que houve consequências, antes houve oportunidade de arrependimento. Por isso, as palavras de Samuel continuam atravessando os séculos e permanecem tão atuais quanto no dia em que foram pronunciadas:
“Obedecer é melhor do que sacrificar.”
Talvez Deus esteja aconselhando você hoje da mesma maneira como aconselhou Seu povo no passado. A questão não é se Ele está falando. A verdadeira pergunta é se estamos dispostos a escutar?
A maturidade espiritual não consiste em aprender apenas depois da dor. Ela se manifesta quando escolhemos confiar na voz de Deus antes que as consequências precisem ensinar aquilo que a obediência poderia ter evitado.
Reflexão
- Tenho buscado obedecer à voz de Deus prontamente ou apenas depois de enfrentar as consequências da desobediência?
- Há alguma área da minha vida em que estou insistindo na minha própria vontade, apesar das orientações claras das Escrituras?
- Estou tentando compensar minha falta de obediência com práticas religiosas, quando Deus deseja, antes de tudo, um coração submisso?
- Tenho reconhecido os conselhos de Deus como expressões do Seu amor e cuidado, ou os interpreto como limitações à minha liberdade?
A história de Israel nos ensina que Deus sempre aconselha antes de disciplinar. Sua voz é um convite à vida, não uma restrição à felicidade. Quando escolhemos escutar Sua Palavra, evitamos sofrimentos desnecessários e experimentamos a paz reservada àqueles que caminham em obediência. Afinal, a obediência nunca foi um peso imposto por Deus, mas o caminho seguro para desfrutar de Sua vontade.
ANDRÉ DAINEZI TONARQUE
Bancário, Teólogo, Professor e Colunista do Blog IBF