Do Mito à História: O Labirinto Edipiano entre Hamlet e Alexandre, o Grande.
Existe um fio invisível que une a ficção dramatúrgica à realidade histórica, uma linha sutil que a psicanálise se dedica a decifrar. Quando olhamos para o príncipe Hamlet, imortalizado por Shakespeare, e para Alexandre, o Grande, o jovem macedônio que conquistou o mundo antigo, encontramos duas trajetórias aparentemente opostas, mas que bebem da mesma fonte psíquica: o Complexo de Édipo.
Essa estrutura fundamental, tão comum a todos nós, revela como os laços primevos com as figuras materna e paterna determinam o compasso da nossa caminhada. Em Hamlet e Alexandre, vemos as duas faces de uma mesma moeda: a parálise da culpa e a fúria da conquista.
Duas Mães, Dois Destinos: O Peso do Desejo Materno
No centro da psique desses dois personagens, reinam mulheres de presença avassaladora. Em Hamlet, temos a Rainha Gertrudes; na história real, a rainha Olímpia de Épiro.
Para Hamlet, o casamento precipitado de sua mãe com o tio Cláudio opera um curto-circuito em seu inconsciente. Cláudio realizou o desejo reprimido que o próprio príncipe carregava: afastar o pai e possuir a mãe. É por isso que Hamlet vacila. Olhar para o assassino de seu pai é olhar para o espelho de seus próprios impulsos ocultos. Como punir o homem que executou o seu próprio desejo inconsciente? A culpa edipiana o paralisa, transformando sua dor em melancolia.
Já com Alexandre, a dinâmica ganha contornos de profecia e mito. Olímpia, sua mãe, rejeitava o marido, o Rei Filipe II, e sussurrava ao ouvido do filho que ele não era de sangue mortal, mas sim fruto de uma união com o próprio Zeus. Olímpia projetou em Alexandre seu narcisismo e seu desejo absoluto de poder.
Se Hamlet se afoga na dúvida, Alexandre se batiza na certeza de que é o escolhido da mãe. Ele aceita o lugar de ideal e converte o desejo materno em uma força motriz avassaladora. O mundo inteiro passa a ser o território a ser conquistado para provar que ele é digno desse amor exclusivo.
O Pai e a Lei: A Angústia da Superação
A psicanálise nos ensina que a figura do pai introduz a Lei e o limite. A forma como o sujeito lida com essa interdição dita sua estrutura:
Hamlet e o Fantasma do Pai: O príncipe vive sob a sombra de um pai idealizado, um fantasma que cobra vingança, mas cuja autoridade o esmaga. Hamlet internaliza a cobrança e adoece de ambivalência.
Alexandre e a Sombra de Filipe: Filipe II era a realidade concreta da castração, o rival que competia pelo amor de Olímpia e pelas glórias do mundo. A angústia de Alexandre era a de ser eclipsado pelo pai. Quando Filipe é assassinado — em um episódio envolto em suspeitas que apontam para o desejo silencioso de mãe e filho —, a barreira cai. Livre do limite paterno, Alexandre marcha para o Oriente.
A Sabedoria Antiga e o Divã: O Eco nas Escrituras
Essa tensão dramática entre pais, mães e filhos, e a busca por um lugar no desejo do outro, não é exclusividade da psicanálise ou da literatura clássica. Os textos sagrados também capturam essa complexidade da alma humana. Em Provérbios, encontramos a exata medida do peso que as projeções parentais exercem sobre os filhos:
"O filho sábio alegra a seu pai, mas o filho insensato é a tristeza de sua mãe." — Provérbios 10:1
Alexandre buscou a sabedoria das conquistas para ser a eterna alegria de Olímpia, enquanto Hamlet, em sua melancolia, encarnou a dor e o desassossego de uma dinastia partida. Ambas as jornadas nos lembram de um mandamento que a clínica psicanalítica tenta resgatar: a necessidade de nos desligarmos das expectativas que não são nossas para que possamos, finalmente, viver. Há uma advertência implícita na Epístola aos Efésios que dialoga diretamente com a angústia de superação que consumiu o jovem macedônio:
"E vós, pais, não provoqueis à ira vossos filhos..." — Efésios 6:4
Filipe provocou a ira e a sede de triunfo de Alexandre; o fantasma do rei da Dinamarca provocou a ruína mental de Hamlet. Quando os pais falham em oferecer um contorno seguro e projetam suas próprias guerras nos filhos, o destino destes costuma se desenhar entre o campo de batalha e o abismo.
Considerações para o Divã
Na nossa prática clínica, no calor do dia a dia, frequentemente nos deparamos com esses mitos modernizados. Atendemos "Hamlets" imobilizados diante das escolhas da vida, sufocados pela culpa de desejarem além do que a família permite, e "Alexandres" incansáveis, que acumulam títulos, bens e vitórias, mas que no fundo ainda correm para entregar o mundo de presente a uma mãe que nunca se satisfaz.
A grande beleza da psicanálise está em oferecer a esses sujeitos a chance de reescrever a própria história — para que o príncipe possa reinar sem fantasmas e o conquistador possa, finalmente, descansar.
Olhar para Hamlet e Alexandre é olhar para as nossas próprias amarras. Todos nós nascemos no território dos desejos de nossos pais, habitando suas promessas, seus medos e suas faltas.
Crescer, no entanto, exige um ato de coragem poética: o de descer do pedestal dos mitos familiares, desarmar as espadas que guardamos para combater os nossos fantasmas e aceitar a nossa própria e humana pequenez. Afinal, a maior e mais difícil conquista não é o mundo exterior, mas a pacificação das terras que habitam dentro de nós.
Elaine M Ceotto -mãe de Nicolas, Renzo e Valentina -psicanalista em construção