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DO MITO DA COMPLETUDE AO AMOR POSSÍVEL

DO MITO DA COMPLETUDE AO AMOR POSSÍVEL

Do Mito da Completude ao Amor Possível

Ao encerrar o mês das crianças, me peguei revisitando fotos antigas de quando meus três filhos ainda eram bebês. Diante daquelas imagens, é quase involuntário que as palavras mãe e amor se entrelacem de imediato. No entanto, o tempo, a clínica e a própria vida encarregam-se de desmanchar as idealizações.

Compreendi verdades que, à primeira vista, podem soar cruas. No início dessa travessia, confesso que também estranhei o caminho; mas, à medida que o novelo do afeto foi se desenrolando, aquilo que parecia desconstrução revelou-se um alívio profundamente libertador. O amor materno é culturalmente tido como a certeza mais inabalável do mundo. Mas o que significa, afinal, a experiência de amar?

O mestre Jesus, ao caminhar entre nós, resumiu a essência de toda a Lei em um mandamento basilar: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento (...) e ao teu próximo como a ti mesmo.”

É exatamente aí que a investigação se aprofunda.

Na psicanálise, Jacques Lacan cunhou uma das suas máximas mais desconcertantes: “Amar é dar aquilo que não se tem a alguém que não pediu.” O que isso quer dizer? Que o amor não opera no campo do "ter"  não é sobre trocar certezas, bens ou garantias. Amar opera no campo da falta. É comparecer diante do outro desarmado de onipotência, oferecendo não uma resposta pronta, mas o próprio espaço onde o outro possa existir como sujeito singular.

Se voltarmos às palavras de Cristo à luz dessa constatação, deparamo-nos com uma premissa incontornável: como seria possível sustentar o amor ao próximo se recusamos o acolhimento de nós mesmos?

Quando ignoramos nossa própria condição, o "amor" corre o risco de se tornar uma farsa inconsciente  a tentativa aflitiva de oferecer ao outro uma perfeição que não possuímos, na esperança neurótica de que ele nos devolva uma completude que não existe na experiência humana. Ninguém preenche o vazio fundamental de ninguém.

Quando, então, podemos dizer que amamos?

Amar passa, primeiramente, pelo trabalho honesto de autoconhecimento e aceitação. É preciso reconhecer as próprias limitações sem desespero, acolher as falhas, trabalhar as feridas, respeitar os contornos e celebrar as virtudes que nos constituem. Somente quando nos desobrigamos de sermos deuses para nós mesmos é que podemos nos voltar ao outro com atitude, presença e afeto real.

Amar seja a um filho, seja ao próximo é enxergar o outro atravessado pelas mesmas faltas, dores e contradições que habitam em nós. E, mesmo assim  precisamente por ele ser assim , acolhê-lo como digno do nosso mais autêntico amor.

Elaine M Ceotto Esposa, mãe e psicanalista em construção

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