DO PENSAMENTO AO SENTIDO: O QUE SUSTENTA A NOSSA VIDA?
Do Pensamento ao Sentido: O Que Sustenta a Nossa Vida?
“Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento.”
Filipenses 4:8
Meus caros,
Mais uma segunda-feira, mais uma reflexão…
Talvez por estarmos vivenciando o Setembro Amarelo tempo em que nos debruçamos com tanta urgência sobre o valor de vidas preciosas que se perderam de seus motivos , tenho voltado com frequência a esses versos bíblicos e ao seu impacto concreto no nosso dia a dia.
Com frequência me pego revisitando a célebre frase do psiquiatra austríaco Viktor Frankl, fundador da Logoterapia e da Análise Existencial:
“Aquele que tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como.”
Há uma beleza ímpar em perceber como a sabedoria das escrituras, a psicologia profunda e a neurociência moderna caminham juntas para nos dizer a mesma verdade essencial: uma vida sem propósito adoece porque deixa de ser vida para se tornar mera sobrevivência.
O circuito invisível: pensamento, sentimento e ação
Costumamos acreditar que somos reféns espontâneos do que sentimos, mas a mente humana opera em uma engrenagem contínua: o que pensamos molda o que sentimos, e o que sentimos direciona o modo como agimos.
A neurociência explica isso com clareza através da neuroplasticidade a capacidade do cérebro de se remodelar conforme os estímulos que recebe. Quando permitimos que a mente seja tomada por ruminações de desamparo, culpa e autocrítica, ativamos repetidamente os circuitos de estresse (como o eixo da amígdala cerebral), inundando o corpo com sinais de perigo. O sentimento resultante é a angústia; a ação resultante é o isolamento, a paralisia ou a exaustão.
Por outro lado, quando Paulo orienta a escolher conscientemente o que ocupa o pensamento o que é nobre, justo, amável e verdadeiro , ele não propõe uma ingenuidade que finge que os problemas não existem. Ele propõe um treino atencional. Escolher em quais verdades ancorar a atenção cria novas vias neurais, acalmando o sistema nervoso e abrindo espaço emocional para respostas mais conscientes e equilibradas.
A lição de Frankl: o vazio existencial e a busca de sentido
Viktor Frankl sobreviveu aos horrores dos campos de concentração e observou que os prisioneiros que resistiam não eram necessariamente os fisicamente mais fortes, mas aqueles que mantinham uma âncora interna: um livro inacabado, um ente querido a reencontrar, uma fé viva.
Para a abordagem analítica de Frankl:
O ser humano não é movido primariamente pelo prazer ou pelo poder, mas pela vontade de sentido.
Quando perdemos o significado, caímos no chamado vazio existencial, um terreno fértil para a depressão, o desespero e a sensação de que não há saída.
A dor faz parte da condição humana, mas o sofrimento se torna insuportável quando não encontramos sentido em continuar caminhando através dele.
Um olhar acolhedor para a nossa dor
No contexto da valorização da vida, compreender essa engrenagem é libertador:
1. Atenção ao diálogo interno: Aquilo que você repete a si mesmo todos os dias é justo e verdadeiro, ou são cobranças implacáveis que roubam suas forças?
2. Cultivo deliberado: Cuidar da mente é como cultivar um jardim; se não plantamos sementes intencionais de verdade e beleza, as ervas daninhas da desesperança crescem sozinhas.
3. Resgate do propósito diário: O sentido da vida raramente é algo grandioso ou abstrato. Na maioria das vezes, ele está nas pequenas tarefas cumpridas com amor, em um vínculo sincero que mantemos e na decisão de ser presença na vida de alguém hoje.
Que nesta semana possamos vigiar a porta de entrada dos nossos pensamentos. Afinal, a vida que se sustenta diante das tempestades não é a que está livre de dor, mas a que sabe exatamente por quem e pelo que continua de pé.
Elaine Martins Ceotto
Esposa, mãe e psicanalista em construção