ENTENDO MEUS LIMITES
ENTENDO MEUS LIMITES
Setembro Amarelo: quando o corpo pede para ser escutado
Vivemos em uma sociedade que, muitas vezes, nos ensina a continuar mesmo quando já não temos forças. Trabalhar, estudar, cuidar da família, cumprir compromissos e, principalmente, demonstrar que está tudo bem. Mas será que está mesmo? Quantas vezes o corpo apresenta sinais de cansaço, tensão, insônia, falta de ar, aperto no peito, irritação ou desânimo e nós simplesmente dizemos: “é só uma fase”?
O corpo fala. E, muitas vezes, aquilo que não conseguimos colocar em palavras aparece por meio dele.
No Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização e à prevenção do suicídio, somos convidados a olhar com mais cuidado para o sofrimento emocional. A campanha do Centro de Valorização da Vida (CVV) em 2026 reforça justamente a importância da escuta e da presença diante de quem sofre.
Na perspectiva psicanalítica, podemos pensar que nem todo sofrimento consegue ser imediatamente reconhecido ou transformado em palavras. Freud mostrou, em seus estudos sobre a angústia, o luto e a melancolia, que existem experiências internas que podem encontrar diferentes formas de expressão. Assim, antes de uma pessoa dizer “não estou bem”, seu comportamento, seu corpo e suas relações podem já estar sinalizando que algo precisa ser cuidado.
Quais sinais estamos ignorando?
Nem todo cansaço significa depressão e nem toda ansiedade significa um transtorno. Entretanto, mudanças persistentes merecem atenção. A Organização Mundial da Saúde aponta, entre os sinais associados à depressão, a perda de interesse ou prazer, tristeza ou irritabilidade persistente, alterações no sono e no apetite, falta de energia, dificuldade de concentração, sentimento de culpa ou baixa autoestima e desesperança.
Na ansiedade, podem aparecer preocupação excessiva, tensão, inquietação, dificuldade para dormir, palpitações, tremores, suor, desconfortos físicos e sensação de perigo ou pânico.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas “O que eu tenho?”, mas: “O que está acontecendo comigo e há quanto tempo estou tentando suportar isso sozinho?”
Respeitar os próprios limites também é cuidado
Reconhecer limites não é sinal de fraqueza. É reconhecer que somos seres humanos e que ninguém consegue sustentar tudo o tempo inteiro.
Às vezes, o limite aparece quando começamos a perder o prazer pelas coisas que antes gostávamos. Outras vezes, surge quando dormir já não descansa, quando pequenas situações provocam irritação excessiva, quando o corpo permanece em alerta ou quando a vontade de se afastar de todos aumenta.
A psicanálise nos convida a dar espaço para aquilo que sentimos e a transformar o sofrimento em palavra. Falar pode ser uma forma de começar a compreender aquilo que, sozinho, parece impossível de organizar.
Neste Setembro Amarelo, ENTENDER MEUS LIMITES pode significar parar por alguns minutos e perguntar a si mesmo: Como eu estou? O que meu corpo está tentando me dizer? Estou conseguindo lidar sozinho com aquilo que estou vivendo?
E, principalmente: eu tenho com quem falar?
Escutar a si mesmo e escutar o outro pode ser o primeiro passo para buscar ajuda. A depressão e os transtornos de ansiedade possuem tratamento, e procurar um profissional de saúde mental não deve ser visto como fracasso, mas como uma atitude de cuidado.
Se houver pensamentos de morte, autolesão ou suicídio, é importante procurar ajuda profissional e apoio imediato. O sofrimento não precisa ser enfrentado em silêncio.
Talvez o nosso maior limite não seja aquilo que conseguimos suportar, mas o momento em que precisamos reconhecer que não precisamos suportar tudo sozinhos.
Colunista: Paulo Monteiro
Professor do IBF em Teologia | Consultor Empresarial há mais de 23 anos | Colunista do Blog IBF.