ESCUTAR OU OUVIR: EIS A QUESTÃO

28 de May, 2026 BRUNO GUSTAVO VICENTIN
ESCUTAR OU OUVIR: EIS A QUESTÃO

 

Vivemos em um mundo cada vez mais digital, onde a interação indireta entre pessoas se tornou algo comum. Hoje, para debater um assunto ou simplesmente conversar sobre temas do cotidiano, não é mais necessário estar fisicamente presentes. A tecnologia nos proporciona diversas plataformas nas quais as pessoas podem interagir, dialogar, conversar, debater, ouvir e escutar.

Embora as palavras “ouvir” e “escutar” pareçam semelhantes, existe entre elas uma diferença profunda, capaz de impactar não apenas nossa vida pessoal, profissional e acadêmica, mas também nossa caminhada espiritual. A Bíblia demonstra claramente como a diferença entre apenas ouvir e verdadeiramente escutar pode determinar o rumo de uma vida.

O ato de ouvir é algo natural e comum a todos os seres que possuem capacidade auditiva. Ouvir é captar sons através do canal auditivo, trata-se de um ato físico, involuntário e passivo. Não exige atenção, reflexão ou discernimento. Nesse contesto, tapar os ouvidos seja de forma literal ou espiritual significa simplesmente impedir que o som seja recebido.

Já escutar é um processo muito mais profundo. Escutar é um ato cognitivo, voluntário, ativo e focado que exige atenção, análise e discernimento. Quem escuta não apenas recebe a informação, mas procura compreender seu significado e refletir sobre ela.

Em resumo ouvir é receber o som emitido, mas escutar é compreender e analisar aquilo que foi recebido.

Talvez muitos nunca tenham parado para perceber essa diferença aparentemente sutil. Contudo, ela pode produzir consequências enormes em todas as áreas da vida.

Muitos recebem conselhos diariamente de seus pais, amigos, cônjuges, filhos, lideres ou colegas, mas não dão a devida atenção ao que lhes é dito. Estão tão focados em suas próprias verdades e vontades a ponto de ignorar outras possibilidades e orientações importantes. São pessoas que normalmente agem por impulso, tomam decisões precipitadas, não refletem antes de agir e insistem em fazer tudo à sua maneira.

Por outro lado, existem aqueles que desenvolvem a capacidade de escutar. Essas pessoas analisam, ponderam e processam aquilo que lhes foi falado antes de tomar uma decisão. Agem com mais racionalidade, prudência e maturidade.

Essa diferença entre ouvir e escutar está presente tanto nas decisões cotidianas quanto nas espirituais. E o mais grave acontece quando alguém conscientemente ignora aquilo que Deus está tentando comunicar.

Ao estudarmos a Bíblia, percebemos claramente a importância de escutar. Desde pessoas comuns até reis, muitos receberam orientações de Deus através dos profetas ou outras figuras bíblicas. Alguns apenas ouviram, outros verdadeiramente escutaram.

Todos os reis sejam de Israel ou de Judá, na Bíblia, tiveram pessoas que os aconselharam em diversos motivos e situações esses homens e profetas transmitiam a esses reis as orientações de Deus. Alguns reis apenas ouviam estes homens, outros escutavam e também houve os que os ignoravam.

Saul foi o primeiro rei de Israel um homem com insensatez em seu coração, não escutou a ordem dada por Deus através do profeta Samuel para destruir os amalequitas como descrito em 1Sm 15:1-23. Ele ouviu o profeta, mas não escutou realmente, nem mesmo ponderou a respeito do motivo pelo qual Deus orientou a destruição total daquele povo. Ele decidiu fazer aquilo que considerava melhor segundo sua própria lógica.

Seu problema não foi apenas errar, mas persistir em não escutar as instruções de Deus.

A consequência foi severa:

 “Porquanto a rebeldia é como o próprio pecado da feitiçaria, e a arrogância como o mal da idolatria!. Porque rejeitaste a Palavra de Yahweh, Ele também o rejeitou como rei do seu povo!”. 1Sm 15:23

O reino de Saul foi entregue a Davi não porque Davi era melhor do que Saul, pois também errou gravemente diversas vezes. Davi foi um rei admirável em batalha e um líder estrategista. Realizou grandes feitos no período em que governou Israel, mas tão grande como seus feitos foram seus numerosos erros e pecados e é aqui o grande diferencial entre esses dois homens.

Em 2Sm12:1-13 após o pecado de adultério, Natã o profeta vai ao encontro de Davi e o confronta sobre o adultério cometido. Diferente de Saul, Davi não endurece o coração. Ele escuta a repreensão, reconhece seu erro e se arrepende.

Davi compreendeu que admitir erros não é sinal de fraqueza, mas de maturidade espiritual.

Muitas vezes, também tomamos decisões erradas. O problema não está apenas em errar, mas em permanecer no erro por orgulho e falta de disposição para escutar.

Também vemos na Bíblia reis como Josias, Ezequias e tantas outras pessoas, homens que deram atenção às orientações de Deus. Eles não apenas ouviram palavras, eles escutaram, refletiram, discerniram e tomaram decisões sábias.

Hoje, além de conselhos de líderes e pessoas experientes, temos a presença do Espírito Santo, que nos guia, orienta e aconselha diariamente.

Reflexão Final:

Vivemos em uma geração que ouve muitos sons, muitas opiniões e muitas vozes, mas poucas pessoas realmente param para escutar e discernir aquilo que Deus está falando.

Deus continua falando através da Sua palavra, do Espírito Santo, de conselhos recebidos de pessoas, de circunstâncias em nossas vidas e de correções que sofremos.

A grande questão é, estamos apenas ouvindo ou verdadeiramente escutando?

Escutar exige humildade. Exige reconhecer que nem sempre estamos certos. Exige parar, refletir e permitir que Deus molde nosso coração.

Saul ouviu, mas insistiu em fazer do seu jeito. Davi escutou, reconheceu seu erro e foi transformado.

Todos os dias temos diante de nós essas duas escolhas.

Você já se perguntou:

- Tenho apenas ouvido conselhos ou realmente os tenho escutado?

- Quantas decisões erradas tomei por agir impulsivamente?

- Existe alguma área da minha vida em que estou ignorando a voz de Deus?

- Tenho permitido que o Espírito Santo corrija minhas atitudes?

- Meu coração está sensível para escutar ou endurecido pela minha própria vontade?

Que possamos ter não apenas a capacidade de ouvir sons, mas de desenvolver a sensibilidade espiritual para escutar a voz de Deus e obedecer à Sua direção.

 

 

ANDRÉ DAINEZI TONARQUE

Bancário, Teólogo, Professor e Colunista do Blog IBF


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