Esquecer para Avançar: Onde as Escrituras e a Psicanálise se Encontram

22 de June, 2026 BRUNO GUSTAVO VICENTIN
Esquecer para Avançar: Onde as Escrituras e a Psicanálise se Encontram

Caro leitor,

Hoje, logo pela manhã, enquanto ouvia as Escrituras através da explanação do nosso querido pastor, me detive em um versículo que há muito conhecemos, mas que me saltou aos olhos com um peso diferente:

 

"Esquecendo-me das coisas que para trás ficaram e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo..." — Filipenses 3:13-14

 

No mesmo instante, o meu olhar clínico foi ativado. Pensei: “Esquecer o que passou? Mas não é exatamente o oposto do que a clínica psicanalítica que exerço todos os dias prega?”. Afinal, na psicanálise, nós convidamos o sujeito a lembrar, a escavar o passado e a dar voz às dores que ficaram guardadas.

Seria esse o primeiro grande conflito insolúvel entre as Escrituras e a psicanálise?

Voltei para casa meditando sobre isso. Reli o capítulo inteiro, a carta aos Filipenses na íntegra e o seu contexto histórico. Como alguém convicta de que a Bíblia é o primeiro e maior tratado sobre a psique humana, encontrar uma contradição ali me trouxe um momentâneo desconforto. No entanto, foi justamente nessa busca teológica e clínica que descobri pontos que não apenas desfizeram o nó, mas me deixaram profundamente motivada.

Para compreendermos essa harmonia, precisamos nos fazer duas perguntas fundamentais:

1. Esquecer é possível?

Na clínica, aprendemos que o cérebro não possui uma "borracha" voluntária. Quando tentamos esquecer algo à força, nós não apagamos a memória; nós apenas a empurramos para o inconsciente. O nome disso é recalque (ou repressão). E tudo o que é recalcado ganha força nas sombras, retornando na forma de ansiedade, angústia ou sintomas físicos.

Então, o que Paulo quis dizer? Ao analisar o contexto, percebemos que o "esquecer" paulino não é uma amnésia provocada. É uma reorientação do desejo. Paulo não diz que apagou sua história de perseguidor da igreja; ele diz que essa história perdeu o poder de paralisá-lo. Na psicanálise, chamamos isso de elaboração: o passado deixa de ser um trauma que nos governa e passa a ser apenas um fato da nossa biografia.

2. Esquecer cura ou adoece?

Depende de como se esquece:

 O esquecimento que adoece: É a negação. É fingir que a ferida não existe, colocar um curativo superficial sobre uma infecção. Esse esquecimento gera repetição — quem não lembra do seu passado está condenado a repeti-lo.

 O esquecimento que cura: É o desinvestimento emocional do que passou. É o momento em que o sujeito ressignifica a sua dor. O passado deixa de ser um lugar de morada e passa a ser apenas um ponto de partida.

 

A grande convergência: O que o apóstolo Paulo chama de "esquecer o que para trás fica" é o que, na clínica, celebramos como o fim de uma análise. É o momento em que o analisando consegue olhar para a sua história e dizer: "Isso me aconteceu, mas não me define mais".

 

As Escrituras e a psicanálise não se contradizem aqui; elas se abraçam. Ambas buscam livrar o ser humano das correntes da repetição e do peso da culpa, permitindo que ele se desamarre do que passou para, finalmente, avançar em direção ao seu verdadeiro alvo.

E você, querido leitor, tem tentado sepultar o seu passado ou tem tido a coragem de elaborá-lo para prosseguir?

 


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