Impulsos Humanos: O Mito de Eros e a Psicanálise de Freud

22 de July, 2026 Angélica de Souza Pereira
Impulsos Humanos: O Mito de Eros e a Psicanálise de Freud

Impulsos Humanos: O Mito de Eros e a Psicanálise de Freud

Desde a Antiguidade, os mitos procuram explicar aspectos profundos da experiência humana. Entre eles, o mito de Eros ocupa um lugar especial por representar uma força que ultrapassa o amor romântico. Na mitologia grega, Eros é o deus do desejo, da atração e da criação. Sua presença simboliza a energia que aproxima pessoas, gera vínculos e impulsiona a vida.

Séculos depois, Sigmund Freud utilizou esse mesmo nome para representar um dos pilares fundamentais da dinâmica psíquica. Para a psicanálise, Eros não se limita ao amor entre duas pessoas. Ele representa a pulsão de vida: a força que nos impulsiona a preservar a existência, construir relações, aprender, criar, cuidar e buscar prazer.

Ao longo da vida, somos movidos por diferentes impulsos. Alguns nos aproximam do crescimento, da cooperação e do afeto; outros parecem nos conduzir à destruição, à repetição do sofrimento ou à ruptura de vínculos. Foi observando essas tendências que Freud propôs a existência de duas forças fundamentais que habitam o psiquismo humano: Eros e Tânatos.

Eros é a energia da vida. Está presente quando cultivamos amizades, construímos uma família, desenvolvemos um projeto profissional, criamos uma obra de arte ou encontramos sentido em nossas experiências. É a força que une, organiza e favorece a continuidade da vida. Mesmo diante das dificuldades, Eros nos impulsiona a seguir em frente, buscar soluções e investir emocionalmente no mundo.

Em contraste, Freud descreveu Tânatos como a pulsão de morte. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, essa ideia não se refere apenas ao desejo consciente de morrer. Trata-se de uma tendência inconsciente voltada para a redução das tensões, podendo se manifestar em comportamentos autodestrutivos, agressividade, repetição de padrões prejudiciais ou na dificuldade em preservar aquilo que nos faz bem.

Essas duas forças não vivem separadas. Pelo contrário, coexistem em todos nós. Em muitos momentos, elas entram em conflito. Uma pessoa pode desejar construir um relacionamento saudável e, ao mesmo tempo, repetir comportamentos que enfraquecem esse vínculo. Pode sonhar com mudanças positivas, mas sentir-se presa a hábitos que a impedem de avançar. Essa tensão faz parte da complexidade da vida psíquica.

O mito de Eros continua atual justamente porque simboliza uma dimensão essencial da existência humana: a capacidade de criar, amar e transformar. Entretanto, essa potência não elimina nossos conflitos internos. A vida emocional é marcada por escolhas constantes entre investir na construção ou permanecer preso à repetição de experiências dolorosas.

A psicanálise nos convida a reconhecer esses movimentos internos sem julgamentos simplistas. Quando compreendemos nossos impulsos, passamos a perceber que muitos comportamentos não são fruto apenas da razão, mas também de forças inconscientes que influenciam nossas decisões, afetos e relações.

Nesse sentido, o autoconhecimento torna-se um caminho importante. Conhecer nossos desejos, compreender nossas repetições e refletir sobre nossas escolhas fortalece a ação de Eros em nossa vida. Não significa eliminar os conflitos  eles fazem parte da condição humana , mas desenvolver uma relação mais consciente com eles.

O mito de Eros permanece vivo porque fala de algo universal: o impulso que nos leva a criar significado, estabelecer laços e continuar vivendo apesar das dificuldades. Ao mesmo tempo, a teoria freudiana nos lembra que esse impulso convive com forças opostas, tornando a experiência humana rica, contraditória e profundamente complexa.

Assim, compreender Eros e Tânatos é compreender um pouco mais de nós mesmos. Entre a construção e a destruição, entre o desejo e o medo, entre a esperança e a repetição, seguimos escrevendo nossa própria história. E talvez seja justamente nessa permanente tensão que reside a maior riqueza da experiência humana.

Colunista :Paulo Monteiro.

Professor do IBF em Teologia,Consultor Empresarial há mais de 23 anos.


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