O Berço do Devir: A Figura Materna na Trama da Psique

05 de May, 2026 BRUNO GUSTAVO VICENTIN
O Berço do Devir: A Figura Materna na Trama da Psique

O Berço do Devir: A Figura Materna na Trama da Psique

O Dia das Mães nos convida a uma reflexão que vai além da celebração afetiva; convida-nos a olhar para a origem. Na psicanálise, a "mãe" não é apenas uma figura biológica ou um papel social, mas a matriz fundamental sobre a qual o edifício do eu é erguido. É através desse primeiro encontro que o ser humano deixa de ser apenas biologia para tornar-se sujeito.

A Fundação do Desejo: Freud e o Primeiro Objeto

Para Sigmund Freud, a mãe é o primeiro objeto de amor e o primeiro "estrangeiro" que apresenta o mundo ao bebê. Ela é quem atende às necessidades vitais, mas, ao fazê-lo, faz algo muito mais profundo: ela erotiza o corpo do filho. Através do toque, do olhar e do zelo, a mãe transforma o organismo em um corpo pulsional, onde nascem as primeiras marcas do inconsciente.

Oi A Função de Sustentação: Winnicott e a "Mãe Suficientemente Boa" Donald Winnicott traduziu a complexidade do cuidado com poesia: a mãe não precisa ser perfeita, mas "suficientemente boa". É ela quem oferece o holding (sustentação), criando um ambiente seguro para que o bebê possa simplesmente "ser". A falha gradual dessa mãe é o que permite à criança descobrir sua própria autonomia, nascendo ali o espaço da criatividade e do viver.

O Arquétipo do Cuidado: Jung e a Grande Mãe

Carl Jung enxerga a mãe como a personificação da Grande Mãe, uma força ancestral que nos liga à origem de tudo. Ela é o símbolo da proteção e da fertilidade, mediando o caminho entre o mundo interno e a individuação. Ser mãe, para Jung, é carregar essa luz que guia o filho para fora da fusão, em direção ao seu próprio destino.

O Sagrado Embate: A Culpa e o Deleite

Habitar esse papel essencial é sustentar, também, uma ambivalência silenciosa. Todas as mães visitam o território da culpa e a sensação de incapacidade diante do infinito que é um filho. É o que muitos nomeiam como "padecer no paraíso", mas que aqui entendemos como o sacrifício do ego para que o outro floresça. Esse padecer não é punitivo, é a dor do parto que se renova no zelo diário. E nesse mesmo solo de renúncia, brota um deleite absoluto: uma conexão visceral e inexplicável com sua "cria", onde o cansaço se dissolve no prazer de contemplar o próprio milagre da vida.

Que possamos homenagear não a perfeição, mas a humanidade dessa mulher que, entre o zelo e a renúncia, tece os primeiros fios da nossa alma. Ser mãe é oferecer o olhar que nos nomeia e o abraço que nos funda. A todas aquelas que se fazem porto e parto, minha mais terna gratidão por permitirem o nascimento do ser.

Elaine M Ceotto

Dedico aos meus filhos Nicolas, Renzo e Valentina que me ensinam a cada dia nessa extraordinária jornada 


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