O Narcisismo Além do Rótulo: Por que não devemos diagnosticar sem critério?

11 de May, 2026 BRUNO GUSTAVO VICENTIN
O Narcisismo Além do Rótulo: Por que não devemos diagnosticar sem critério?

No mundo conectado de hoje, onde a informação corre rápido demais, tornou-se comum ouvirmos a frase: "Ele(a) é um narcisista!". O termo, que deveria ser restrito aos consultórios, acabou virando um adjetivo para qualquer pessoa que nos magoa, que termina um relacionamento de forma abrupta ou que possui uma personalidade mais firme. Muitas vezes, usamos esse rótulo como um "curativo" para a nossa própria frustração: é mais fácil chamar o outro de doente do que encarar a dor de uma perda ou a dificuldade de lidar com alguém diferente de nós.

Na psicanálise, o narcisismo é algo muito mais profundo do que simplesmente "se achar demais". É uma forma de organização da mente que exige uma análise profissional e cuidadosa. Rotular alguém sem embasamento é perigoso, pois transforma um conflito humano comum em uma doença, impedindo que as pessoas realmente entendam o que aconteceu em suas relações.

Para além de Freud, Jacques Lacan nos ajuda a entender que o que chamamos de "Eu" é construído através do espelho, na imagem que o outro nos devolve. O narcisismo, portanto, é uma captura por essa imagem idealizada. Quando alguém fica preso nessa organização, vive em um eterno esforço para manter uma máscara de perfeição.

É fundamental compreender que quem possui essa estrutura também atravessa um sofrimento genuíno. Por trás de uma aparência de extrema autoconfiança ou superioridade, existe uma fragilidade imensa. O narcisista pode sofrer profundamente com o vazio existencial, com a dependência da aprovação constante e com o pânico de que sua imagem "perfeita" se quebre, o que gera um isolamento invisível e doloroso.

Sigmund Freud nos ensina que o equilíbrio entre o amor por si mesmo e o amor pelo outro é essencial para a saúde mental. Em um de seus pensamentos mais célebres, ele nos lembra:

É preciso começar a amar para não adoecer, e inevitavelmente adoeceremos se, devido à frustração, formos incapazes de amar." Portanto, antes de apontar o dedo e carimbar o outro com um diagnóstico pronto, precisamos resgatar a ética e o respeito pela complexidade humana. A dor de um relacionamento que não deu certo é real, mas tratá-la com clareza e sem rótulos apressados é o primeiro passo para uma recuperação verdadeira e para uma convivência mais saudável.

Elaine M Ceotto -

 


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