O PERFUME POR TRÁS DA ARMADURA:QUANDO A ROSA APRENDE A REPOUSAR
O Perfume por Trás da Armadura: Quando a Rosa Aprende a Repousar
Frequentemente atribuída a Machado de Assis, a célebre máxima pertence, na verdade, ao escritor e jornalista francês Alphonse Karr:
“Não nos devemos queixar porque as roseiras têm espinhos, mas sim alegrarmo-nos porque os espinhos têm rosas.”
A inversão do olhar proposta por Karr guarda uma sabedoria que transcende a botânica e nos convida a entrar no terreno silencioso da alma humana. Ao pesquisar a morfologia das roseiras, a ciência nos revela um dado curioso e profundamente simbólico: as rosas não têm espinhos verdadeiros. O que chamamos de espinhos são, biologicamente, acúleos.
Diferente do espinho estrutural que nasce das profundezas vasculares da planta, fundido à sua medula , o acúleo é uma formação puramente epidérmica. Ele se projeta na superfície do caule com duas finalidades essenciais: servir de gancho para que a planta se firme em suportes enquanto cresce em busca de luz e atuar como defesa provisória diante de predadores. E a botânica nos ensina algo comovente sobre ele: por ser estritamente periférico, o acúleo pode ser contornado e até desarmado sem que a seiva ou a estrutura vital da roseira sejam feridas.
A Couraça Epidérmica e a Fantasia da Onipotência
Em psicanálise, compreendemos que o ego é, antes de tudo, corporal e defensivo. Diante das intempéries, das faltas e das ameaças do ambiente, o sujeito edifica couraças para sobreviver.
Neste mês em que o mundo se tinge de rosa convocando-nos a refletir sobre a integridade, a saúde e o cuidado com o corpo feminino , é impossível não olhar para a dinâmica psíquica de tantas mulheres que se agigantam dia após dia. Pressionadas pelas demandas do lar, da profissão, do sustento e da maternidade, muitas foram levadas a vestir precocemente o arquétipo da guerreira inabalável.
Para não despencar, desenvolveram seus próprios acúleos:
Ganchos de sustentação: a rigidez necessária para se agarrar à vida quando não havia rede de apoio;
Pontas de proteção: o endurecimento da fala, o excesso de vigilância e a autosuficiência para não serem invadidas ou fragmentadas pela dor.
O drama psíquico não reside em ter defesas elas foram vitais para que a mulher pudesse escalar até aqui. O sofrimento se instala quando a mulher passa a se identificar exclusivamente com a sua couraça. Na fantasia neurótica de onipotência, a pessoa acredita que só é amada ou aceita enquanto sustenta o fardo sem vacilar. O acúleo deixa de ser um recurso situacional e passa a ser confundido com a própria identidade.
Por trás do heroísmo diário, quando as portas se fecham e a armadura é despida no silêncio do quarto, o que resta não é uma guerreira de bronze, mas um corpo cansado, habitado por angústias silenciadas e feridas que nunca tiveram tempo de cicatrizar.
A Arte do Manejo e o Retorno à Delicadeza
Quem já cultivou rosas sabe que não se arranca uma defesa com violência. O manuseio da roseira exige reverência, toque compassivo e respeito aos seus limites. Para alcançar o perfume e a delicadeza de uma flor, é preciso aprender a contornar suas defesas sem agredi-la.
Na clínica e na vida, desarmar-se não significa ficar desprotegida, mas reconhecer que a razão de existir da planta nunca foi a ponta que fere, mas a flor que exala. A cura começa quando a mulher se autoriza a viver a castração das suas fantasias de controle: ela não precisa dar conta de tudo, não precisa ser invulnerável e, acima de tudo, não precisa sangrar para ter valor.
Cuidar de si realizar seus exames preventivos, escutar os sinais do próprio corpo, pedir ajuda, deitar a cabeça no travesseiro e admitir a fragilidade é um ato de profunda coragem psíquica. É o momento em que a couraça compreende que já cumpriu o seu papel e pode descansar.
Sob o Olhar do Jardineiro
Nenhum ramo floresce plenamente se tiver de ser, ao mesmo tempo, a raiz, o adubo, o suporte e o podador de si mesmo. Há um limite para as forças humanas, e é justamente onde a nossa armadura falha que a graça encontra espaço para entrar.
Na solidão do nosso secreto, não precisamos sustentar a pose de guerreiras diante d'Aquele que conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó. Ele não nos olha a partir das pontas duras que criamos para nos defender do mundo; Ele olha para a nossa essência e trata cada corte com a paciência que só o verdadeiro Amor possui.
“O Senhor te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; e serás como um jardim regado, e como um manancial de águas, cujas águas nunca faltam.”
Isaías 58:11
Que este tempo seja um convite solene para que cada mulher deponha suas armas, acolha suas fragilidades e permita que suas pétalas voltem a respirar.
Elaine Martins Ceotto
A Rosa que precisa e recebe os cuidados do Jardineiro