OUTUBRO ROSA,QUANDO NOSSO PSICOLÓGICO TEMBÉM CLAMA POR AJUDA
OUTUBRO ROSA, QUANDO NOSSO PSICOLÓGICO TAMBÉM CLAMA POR AJUDA
O Outubro Rosa é um período importante para lembrar que cuidar das mamas também significa cuidar da mulher como um todo. O câncer de mama não atinge somente o corpo. O diagnóstico pode provocar medo, ansiedade, insegurança, tristeza e muitas perguntas sobre o futuro. Por isso, quando falamos em tratamento, precisamos olhar não apenas para a doença, mas também para a pessoa que está enfrentando essa realidade.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) destaca a importância da informação, da detecção precoce e do cuidado integral. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também reconhece que o tratamento do câncer deve considerar necessidades físicas, psicológicas, sociais e espirituais. Em suas orientações para o câncer de mama, a OMS inclui profissionais como médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, assistentes sociais e profissionais de saúde mental dentro de uma abordagem multidisciplinar.
QUANDO O CORPO ADOECE, AS EMOÇÕES TAMBÉM PODEM PEDIR CUIDADO
Receber um diagnóstico de câncer pode representar uma ruptura na vida cotidiana. De repente, surgem exames, consultas, tratamentos e mudanças na rotina. Algumas mulheres podem experimentar medo da morte, preocupação com a família, alterações na autoestima e insegurança em relação ao próprio corpo.
Isso não significa que todas irão desenvolver um problema psicológico. Significa, porém, que suas emoções merecem ser ouvidas.
A saúde mental faz parte da saúde. A OMS define saúde mental como uma condição de bem-estar que ajuda a pessoa a enfrentar as tensões da vida, desenvolver suas capacidades e participar de sua comunidade.
Por isso, procurar um psicólogo ou outro profissional de saúde mental não deve ser visto como sinal de fraqueza. Pedir ajuda é uma forma de cuidado.
UMA VISÃO PSICANALÍTICA: É PRECISO DAR ESPAÇO À PALAVRA
A psicanálise nos ensina a olhar para aquilo que nem sempre conseguimos colocar em palavras. Diante de uma doença grave, podem surgir sentimentos contraditórios: esperança e medo, coragem e fragilidade, confiança e insegurança.
Freud, em seu conhecido trabalho “Luto e Melancolia” (1917), refletiu sobre as diferentes formas como o ser humano reage às experiências de perda. A doença pode provocar diversos tipos de perdas simbólicas: a sensação de segurança, determinadas expectativas para o futuro, mudanças na imagem corporal ou a rotina que existia antes do diagnóstico. Estudos posteriores continuam discutindo a importância das ideias de Freud para a compreensão do sofrimento e do processo de luto.
Nesse sentido, o acompanhamento psicológico ou psicanalítico pode oferecer um espaço de escuta. Não se trata simplesmente de dizer à pessoa para “pensar positivo”. Trata-se de permitir que ela fale sobre aquilo que sente, compreenda suas angústias e encontre maneiras mais saudáveis de lidar com esse momento.
Às vezes, aquilo que não conseguimos falar encontra outras formas de aparecer: ansiedade, irritação, insônia, isolamento ou tristeza. Dar espaço à palavra pode ser uma maneira importante de organizar a experiência emocional.
O VALOR DO ACOMPANHAMENTO MULTIPROFISSIONAL
O câncer de mama exige atenção em diferentes dimensões. O oncologista e a equipe médica cuidam do tratamento da doença; o nutricionista pode auxiliar na alimentação; o fisioterapeuta pode contribuir para a recuperação funcional; o enfermeiro acompanha diversas etapas do cuidado; o assistente social pode ajudar diante de questões familiares e sociais; e o profissional de saúde mental pode acompanhar os aspectos emocionais.
A OMS afirma que o acesso precoce a uma equipe multidisciplinar, incluindo profissionais de saúde mental, nutrição, fisioterapia, assistência social e cuidados paliativos quando indicados, faz parte de uma assistência abrangente ao câncer de mama.
Portanto, cuidar do psicológico não é um complemento sem importância. É parte do cuidado integral.
E ONDE ENTRA A FÉ?
Para muitas pessoas, a fé cristã representa uma fonte significativa de esperança, significado e apoio durante momentos difíceis. A Bíblia não apresenta a vida como uma caminhada sem sofrimento. Pelo contrário, reconhece que existem momentos de angústia, mas também apresenta Deus como aquele que acompanha o ser humano em meio às dificuldades.
O Salmo 46:1 declara: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações.”
Em 2 Coríntios 4:8-9, Paulo afirma que podemos ser atribulados, mas não necessariamente destruídos pela tribulação. A mensagem cristã não significa negar a dor. Significa reconhecer que a dor não precisa ser enfrentada em solidão.
A fé pode oferecer esperança, oração, apoio da comunidade, fortalecimento espiritual e um sentido para continuar caminhando. Entretanto, fé não deve ser colocada em oposição à medicina. Buscar tratamento médico, acompanhamento psicológico e apoio espiritual pode fazer parte de uma mesma caminhada.
A própria OMS reconhece a espiritualidade entre as necessidades que podem aparecer durante o cuidado oncológico e aponta o apoio de comunidades e orientadores espirituais como parte das redes de suporte.
CUIDAR DA MENTE TAMBÉM É UMA FORMA DE CORAGEM
O Outubro Rosa nos convida a olhar para além do diagnóstico. Precisamos enxergar a mulher que sente medo, que tem dúvidas, que algumas vezes chora, mas que também pode encontrar forças para continuar.
Não precisamos escolher entre ciência e fé, entre tratamento físico e cuidado emocional. Podemos compreender que diferentes formas de cuidado podem caminhar juntas.
O médico cuida da doença. O psicólogo ou psicanalista oferece espaço para a elaboração das emoções. Outros profissionais ajudam na recuperação e na qualidade de vida. A família e os amigos oferecem presença. A comunidade cristã pode oferecer oração, acolhimento e esperança.
E a própria mulher precisa lembrar: pedir ajuda também é um ato de coragem.
Que neste Outubro Rosa possamos lembrar não apenas da importância da prevenção e do diagnóstico precoce, mas também de uma verdade fundamental: quando o corpo enfrenta uma batalha, o coração e a mente também precisam ser cuidados.
Cuidar do corpo é importante. Cuidar das emoções também. E, para quem crê, caminhar com Deus pode trazer força e esperança para atravessar cada etapa.
“O Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado.” Salmo 34:18
Colunista: Paulo Monteiro