SETEMBRO AMARELO: QUANDO A VIDA PEDE PARA SER ESCUTADA
SETEMBRO AMARELO: QUANDO A VIDA PEDE PARA SER ESCUTADA
Uma perspectiva bíblica e psicanalítica sobre sofrimento, esperança e cuidado
Setembro Amarelo nos convida a falar sobre um assunto que muitas vezes permanece escondido atrás de sorrisos, silêncio e aparente normalidade: a dor emocional.
Nem sempre aquele que sofre consegue dizer “eu não estou bem”. Algumas pessoas aprendem a esconder suas lágrimas, outras transformam sua dor em irritação, isolamento, excesso de trabalho ou indiferença. Por isso, falar sobre prevenção ao suicídio não significa simplesmente falar sobre morte. Significa, прежде de tudo, falar sobre vida, escuta, acolhimento e esperança.
A Bíblia apresenta um Deus que não ignora a dor humana. Pelo contrário, encontramos nas Escrituras homens e mulheres que experimentaram angústia, medo, solidão, tristeza e momentos de profundo sofrimento.
“Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido.”
Salmo 34:18
Esse texto não promete uma existência sem sofrimento. Ele revela algo diferente: Deus se aproxima daquele que está quebrantado.
1. A dor que não consegue ser dita
Na perspectiva psicanalítica, o sofrimento psíquico nem sempre aparece de maneira clara. O sujeito pode não compreender completamente aquilo que sente.
Freud demonstrou que existe uma dimensão inconsciente da vida psíquica. Há conflitos, desejos, perdas, angústias e experiências que podem permanecer fora da consciência, mas continuam produzindo efeitos.
Por isso, muitas vezes, a pessoa diz:
“Eu não sei o que está acontecendo comigo.”
E essa frase pode ser o início de uma importante jornada de cuidado.
A Psicanálise oferece um espaço no qual a pessoa pode falar sem precisar organizar previamente sua dor. O sujeito pode colocar em palavras aquilo que até então aparecia apenas como angústia, silêncio, sintomas ou comportamentos.
Escutar não significa concordar com tudo.
Escutar significa permitir que a pessoa possa existir diante de alguém sem precisar esconder aquilo que está vivendo.
2. Jesus também encontrou pessoas feridas
Nos Evangelhos, encontramos Jesus constantemente se aproximando de pessoas marginalizadas, enfermas, enlutadas, rejeitadas e emocionalmente quebradas.
Em Mateus 11:28, Jesus declara:
“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.”
Existe algo profundamente significativo nessa passagem: Jesus não manda o cansado fingir que está bem. Ele o convida a aproximar-se.
A fé cristã não precisa negar a existência da dor psicológica.
Pelo contrário, pode oferecer um lugar de acolhimento onde o sofrimento seja reconhecido e cuidado.
3. Nem toda tristeza é falta de fé
Esse é um ponto fundamental.
Uma pessoa em sofrimento emocional não deve ser reduzida a frases como:
“É só orar.”
“Você precisa ter mais fé.”
“Isso é falta de Deus.”
“Basta pensar positivo.”
Embora a oração e a espiritualidade possam ser importantes fontes de esperança, elas não devem ser utilizadas para silenciar o sofrimento.
A Bíblia apresenta pessoas de fé atravessando momentos de profunda angústia.
O profeta Elias, por exemplo, depois de uma experiência intensa, entrou em profundo abatimento.
“Basta; toma agora, ó Senhor, a minha alma...”
1 Reis 19:4
A resposta de Deus naquele momento é extremamente significativa.
Deus não começa repreendendo Elias.
Primeiro, Elias recebe descanso, alimento e cuidado.
Isso nos ensina algo precioso: às vezes, antes de uma grande explicação espiritual, existe uma necessidade humana básica que precisa ser cuidada.
4. A Psicanálise e o valor da palavra
Para a Psicanálise, falar possui uma função fundamental.
Aquilo que não encontra palavras pode aparecer de outras formas.
A angústia pode aparecer no corpo.
A tristeza pode transformar-se em isolamento.
A raiva pode esconder uma ferida.
O silêncio pode esconder um pedido de socorro.
O sujeito pode dizer “não quero viver”, quando, em determinadas situações, aquilo que está por trás dessa afirmação pode ser uma experiência devastadora de perda, abandono, desesperança ou impossibilidade de imaginar um futuro diferente.
Isso não significa minimizar uma fala suicida.
Toda manifestação de intenção suicida deve ser levada a sério.
A escuta psicanalítica pode ajudar o sujeito a construir palavras para sua experiência, compreender conflitos e elaborar perdas e sofrimentos. Entretanto, diante de risco de suicídio, a Psicanálise não deve atuar isoladamente. É necessário acionar uma rede de cuidado adequada, envolvendo profissionais de saúde e, quando necessário, serviços de emergência.
5. O sofrimento não precisa ser enfrentado sozinho
Um dos grandes perigos do sofrimento intenso é o isolamento.
A pessoa começa a acreditar:
“Ninguém vai entender.”
“Não quero incomodar ninguém.”
“Minha família já tem problemas demais.”
“Não existe saída.”
É justamente nesse momento que a presença do outro pode tornar-se fundamental.
“Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo.”
Gálatas 6:2
A comunidade cristã pode exercer uma função importantíssima: ser presença.
Às vezes, ajudar não significa ter uma resposta.
Significa sentar ao lado.
Perguntar:
“Como você realmente está?”
E ter disposição para permanecer quando a resposta for difícil.
6. Esperança não é negar a realidade
Esperança bíblica não significa dizer que tudo está bem quando tudo parece estar desmoronando.
Esperança é acreditar que a história ainda não terminou.
O salmista declara:
“Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus...”
Salmo 42:11
Observe que o salmista não nega o abatimento.
Ele conversa com a própria alma.
Ele reconhece sua condição e, ao mesmo tempo, procura uma possibilidade de futuro.
A esperança pode começar justamente quando alguém consegue dizer:
“Eu ainda não consigo enxergar uma saída, mas vou permitir que alguém caminhe comigo até encontrarmos uma.”
7. Cuidar da mente também é cuidar da vida
Setembro Amarelo precisa ultrapassar a campanha de um mês.
Precisamos construir uma cultura permanente de cuidado.
Cuidar envolve:
ouvir sem julgamento;
reconhecer sinais de sofrimento;
acolher sem minimizar;
incentivar a busca por ajuda profissional;
fortalecer vínculos familiares e comunitários;
combater o isolamento;
tratar transtornos mentais adequadamente;
falar abertamente sobre sofrimento emocional;
preservar a dignidade daquele que sofre.
A fé pode oferecer sentido.
A Psicanálise pode oferecer escuta e elaboração.
A Psicologia e a Psiquiatria podem oferecer avaliação e tratamento.
A família pode oferecer presença.
A comunidade pode oferecer pertencimento.
E todos esses elementos podem fazer parte de uma rede de proteção à vida.
8. Uma palavra para quem está sofrendo
Talvez ninguém saiba o tamanho da batalha que você está enfrentando.
Talvez você esteja sorrindo enquanto, por dentro, sente que está desmoronando.
Talvez esteja cansado de explicar o que sente.
Mas sua dor merece ser ouvida.
Você não precisa resolver toda a sua vida hoje.
Você precisa dar o próximo passo.
Fale com alguém.
Procure uma pessoa de confiança, um profissional de saúde mental, um serviço de saúde ou uma emergência se houver risco imediato.
A Bíblia diz:
“Porque eu bem sei os pensamentos que penso de vós, diz o Senhor; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que esperais.”
Jeremias 29:11
Essa esperança não deve ser usada para negar a dor presente. Ela nos lembra que o sofrimento de hoje não precisa definir todo o futuro.
9. Uma Igreja que escuta
Talvez uma das maiores expressões de amor cristão em nosso tempo seja aprender a escutar.
Uma Igreja que acolhe precisa ser uma Igreja que permite que pessoas digam:
“Eu estou sofrendo.”
Sem vergonha.
Sem condenação.
Sem respostas simplistas.
Sem transformar sofrimento psicológico em culpa espiritual.
Jesus disse:
“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.”
João 10:10
Defender a vida é também aprender a cuidar daqueles que estão perdendo a esperança.
Setembro Amarelo não é apenas sobre falar de suicídio.
É sobre perguntar:
Quem está sofrendo em silêncio ao meu lado?
É sobre perceber o amigo que se afastou.
É sobre ligar para quem desapareceu.
É sobre abraçar quem não consegue falar.
É sobre encaminhar quem precisa de ajuda.
É sobre compreender que pedir ajuda não é sinal de fraqueza.
E, acima de tudo, é afirmar:
Sua vida importa. Sua dor importa. Sua história ainda pode ser escrita.
Se houver risco imediato
Se alguém estiver pensando em tirar a própria vida, tiver feito uma tentativa ou estiver em perigo imediato, não deixe a pessoa sozinha e procure atendimento de emergência. No Brasil, o CVV atende pelo telefone 188, gratuitamente, para apoio emocional e prevenção do suicídio. Em uma emergência médica, procure o SAMU (192) ou um pronto atendimento.
O IBF conta com uma rede de psicanalista para poder ajudar, clique aqui no site no ícone psicanalista e entre em contato com um dos nossos atendentes
Colunista: Bruno Vicentin