Viver Apocalipticamente : O desvelar da alma
17 de August, 2026
• Angélica de Souza Pereira
Viver Apocalipticamente: O desvelar da alma
Caro leitor,
Aqui estamos mais uma vez a refletir sobre os movimentos que
a vida nos propõe.
Recentemente, tenho me detido sobre o conceito de “viver
apocalipticamente”. A palavra apocalipse vem do grego
apokálypsis (ἀποκάλυψις) e significa, literalmente, "revelação"
ou "descoberta". O sentido original remete ao ato de "tirar o
véu", de desvelar aquilo que estava escondido sob as camadas
do cotidiano.
Mas, o que isso teria a ver com a nossa jornada psicanalítica?
Absolutamente tudo.
Desde que me permiti mergulhar na análise, descobri que o
consultório é, na verdade, um espaço sagrado de revelações.
Encontramos ali partes de nós que estavam ocultas nas
sombras, memórias que pediam para ser vistas e dores que, ao
serem nomeadas, perdem o peso do mistério. É a "arqueologia
da alma": o esforço de retirar o véu para entender a nossa
própria história.
Nesse processo, lembro-me da advertência bíblica presente no
livro do Apocalipse: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”
(Apocalipse 3:22). Na psicanálise, aprender a ouvir é um
exercício de humildade. Muitas vezes, pensamos que nos
conhecemos, mas a verdade é que sabemos pouco sobre os
sussurros do nosso inconsciente. Ouvir o que está por trás das
nossas falas, hesitações e sintomas é, justamente, o convite para
não sermos mais reféns do nosso passado.
Carl Gustav Jung, um dos pioneiros na compreensão dessa
profundidade da mente, nos deixou uma máxima essencial: “Até
que você torne o inconsciente consciente, ele dirigirá sua vida e
você o chamará de destino”.
O "viver apocalipticamente", portanto, não é sobre o fim dos
tempos, mas sobre o fim da nossa cegueira para com nós
mesmos. É o processo contínuo de trazer à luz o que ainda está obscuro. É um caminho desafiador, por vezes doloroso como o
nascimento, mas profundamente poético e libertador.
Que possamos ter coragem de tirar os nossos véus e, acima de
tudo, que tenhamos ouvidos atentos para ouvir a verdade que
habita em nosso interior. A análise, afinal, é uma construção
que nunca termina; é o exercício diário de nos tornarmos quem
realmente somos.
Com carinho,
Colunista: Elaine Martins Ceotto
Esposa, mãe e psicanalista em construção de si mesma.